ANTÔNIO PENA
Alguma Poesia
EM
SÍNTESE
—
“Viagens?”
—
“Paisagens novas?”
—
“Mudança?”, me inquirem,
quando
apraz-me
sempre a volta, não as idas;
se
olho mais é para dentro, e me deleita
e
basta
aquilo
a que
chamam
rotina.
A
RESPOSTA
Adquirira,
em Minas,
pequena
propriedade rural
e,
por esse tempo,
costumava
passar finais de semana
e
feriados ali,
junto
à natureza,
respirando
o ar puríssimo da roça
e
gozando do seu sossego.
E
justamente num desses passeios
foi
que eu dei pela falta dos tico-ticos
e
tizius — passarinhos que um dia
habitaram
nossos quintais,
e
que não tinham o menor valor comercial,
diferentemente
dos
pobres
dos canários e trinca-ferros,
que
eram caçados e condenados,
por
causa de seu canto,
à
prisão perpétua em minúsculas gaiolas,
das
quais grande parte
era
construída com hastes de folha de embaúba
e
varetas de bambu, tendo fundo
improvisado
com lata
ou
papelão. Lembro-me
de
que as pobres das aves,
na
vã tentativa
de
se libertarem do cárcere, tanto,
mas
tanto
se
debatiam
que
causavam
escoriações em torno ao bico.
Mas,
ainda sobre os tizius
e
tico-ticos, o que ocorrera
com
eles, qual a razão
do
seu sumiço?
Em
visita a um de nossos vizinhos
teria
a resposta.
Notara
a presença de alçapões armados,
embora
na casa
não
houvesse qualquer pássaro preso.
Daí,
questionada a finalidade das armadilhas,
a
confissão, espontânea,
de
que as roças de milho eram muito prejudicadas pelos passarinhos.
Nem
foi preciso se prosseguisse a conversa,
eu
já tinha a resposta,
não
só sobre a finalidade dos alçapões armados
como
à pergunta que a mim mesmo me fizera,
acerca
do desaparecimento
dos
tico-ticos e tizius, que,
juntamente
com rolinhas, sanhaços, sabiás
um
dia povoaram nossas matas.
“LEITO DE FOLHAS VERDES”
Abrindo
ao acaso
as Poesias
completas
de
Gonçalves Dias, deparei com o título
de
uma de suas composições
por
ele denominadas “Americanas”,
a
qual, entre tantas outras do autor,
admirara
em minha juventude:
—
“Leito de folhas verdes”, e iniciei
imediatamente
a
releitura dela.
E,
à medida que a ia relendo, ia
me
embriagando,
me
extasiando
com
aquelas palavras tão
bem
elaboradas, com
o
ritmo daqueles decassílabos.
E
eis que cheguei aos dois primeiros versos da terceira estrofe,
com
os quais me deliciaria ainda mais:
—
“Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já
solta o bogari mais doce aroma!”
É
que sempre os guardara de cabeça,
conquanto
não me lembrasse
de
quem eram, a que
poema
pertenciam, e, de repente,
estavam
ali,
à
minha frente:
—
“Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já
solta o bogari mais doce aroma!”
Logo
me vi lá em meados
dos
anos 80. Adquirira
os Poemas
de Gonçalves Dias,
edição
de bolso
da
Ediouro.
Como
é bom recordar,
Como
é bom
deparar
num livro “novo”
com
um texto já conhecido, lido
e
admirado outrora.
Tal
coisa já
me
havia ocorrido, por exemplo,
ao
rever o poema “Ladainha”,
de
Cassiano Ricardo,
também
em suas
Poesias
completas. (Não
que
eu não soubesse, nesse caso,
de
quem eram tais versos, mas porque
me
esquecera sinceramente deles,
que,
se não me engano, lera
pela
primeira vez
num
velho número da revista Seleções ,
e
relera
outras
vezes
em
livros didáticos, durante
minha
vida estudantil.)
Mas
voltemos aos portentosos versos
que
me levaram a escrever este poema:
—
“Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já
solta o bogari mais doce aroma!”
Lembra-me
o forte impacto que me causaram. Amei
de
cara o nome “tamarindo”,
tendo
ficado curioso
em
conhecer a árvore que o leva,
bem
como,
obviamente,
sua
flor.
Na
época, não havia internet,
nem
celular.
Demoraria
eu um tempo
até
conhecer, numa
revista
de botânica,
um
tamarindeiro,
o
que, mesmo assim
(ou
talvez por isso),
me
foi algo
gratificante.
Nessa
mesma revista, aproveitei
para
conhecer também o arbusto
de
nome bogari, encantando-me
com
o branco de sua flor,
tendo
embora
me
ficado a curiosidade
de
conhecer ainda o seu perfume,
já
que o poeta mesmo
foi
quem o sugerira prazeroso:
—
“... já solta o bogari mais doce aroma!”
_______________
O
bom de novos livros
nem
sempre é a novidade
que
porventura tragam, mas
o
que já conhecemos e, súbito,
ou
propositadamente,
revemos
durante o percurso silencioso
de
uma leitura ou, simplesmente,
ao
folheá-los, distraídos,
ou
mesmo, ainda,
abrindo-os,
ao acaso,
em
determinada página,
como
comigo se deu
abrindo
eu
as Poesias
completas,
de
Gonçalves Dias, e aqui eis que narro,
poeticamente,
pelo
fato de ter deparado
com
o título de uma de suas composições
por
ele denominadas “Americanas”,
a
qual, entre tantas outras do autor,
admirara
em minha juventude:
—
“Leito de folhas verdes”,
e
sobretudo com dois de seus admiráveis versos:
—
“Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já
solta o bogari mais doce aroma!”,
que
sempre guardara de cabeça,
conquanto
não me lembrasse
de
quem eram e a que poema
pertenciam.
PASSEIO
& NEGÓCIOS
(DE CARONA NO CAMINHÃO DE LEITE — IDA E
VOLTA)
O caminhão de leite para um instante em
frente à tranqueira da pequena propriedade rural. Meu avô desce da cabine,
muito cuidadosamente. Agradece ao motorista. Meu amigo e eu praticamente
saltamos da carroceria. Destreza da juventude. Não. Não agradecemos.
Correria pelo caminho. Agitação. Meu
avô nos pede que o esperemos.
Eis a pinguela. Apoio balançando muito,
atravessamos para a outra margem do rio. Que gosto o de estar ali! Uma rês nos
saúda, mugindo a certa distância. Que gosto, o de estar ali!
Seguimos pelo caminho, caminho
estreito, feito pelo próprio gado, que segue por ele diariamente, em fila
indiana, rumo ao curral e na volta dele. Como nós o fazemos agora, um atrás do
outro.
Gosto de ver a casa, alta, paredes de
pau a pique muito brancas. Gosto de subir-lhe a escada. Abrir-lhe a porta.
Adentrá-la. Gosto de pegar a velha canequinha sem asa. Descer ao curral. Tomar,
enfim, o leite cru recém-tirado da melhor vaca. Ali mesmo, junto àquele
aglomerado de animais em festa sob a tímida réstia de luz matinal tentando
romper a cerração: reses com as crias, galinhas, galinhas-d’angola, garnisés,
um cão vadio e mesmo um gato ronronante de alegria por nos ver.
Alheios à conversa de meu avô com o
camarada, falamos de outras coisas. Para nós mais interessantes.
E eis que já nos encontramos entre as
laranjeiras do pomar. Os galhos pendem com o peso dos frutos. Muitos,
espalhados pelo chão, apodrecendo. Recolho-os em um balde, corto-os em quatro
partes com um velho facão sem ponta e distribuo-os ao gado. Gosto, o de estar
ali, ali, fazendo algo que é nada, realmente. Relevante, contudo, para mim.
Meu avô, agora, nos grita:
— O caminhão! Vamos embora...
Deixo, vazio, o balde no chão, rente ao
cocho em torno ao qual as reses se reúnem. Sem tempo para depositá-lo no lugar
de onde o tirei. Sem tempo para mais nada.
— Adeus, universo rural. Adeus.
(Agradecido à vida por esses poucos minutos, sem que profira a palavra gratidão
ou mesmo nela esteja pensando, dou-lhe eu as costas.) Quem sabe em breve.
Adeus!
DE UMA FOLHA
Que
escaldante este sol de verão!
Ontem,
surpreendeu-me
uma
rajada de vento. Rota,
às
intempéries tenho resistido.
E
demoradamente amareleço. (Inveja
tenho
às irmãs a que assisto caindo,
serena
e ritmadamente,
afinal
desprendidas
do
galho que as trazia aprisionadas.)
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