MENULFO NERY BEZERRA
E SUA POESIA
CREPUSCULAR*
Menulfo Nery Bezerra, natural
de Salvador, barra-mansense por adoção, nos brinda este ano com a publicação de
seu mais novo trabalho: Joias do meu
relicário, composto em grande parte de sonetos (cujo desafio assumiu por
conta de sua amizade com a mestra e prosadora Eliette Ferreira), mas em que se
destacam também outras composições que em nada ficam devendo ao modelo de forma
fixa de origem italiana do século XIII. Trata-se mesmo de um relicário tão
primorosa coletânea de versos, a que o poeta deu tanto de si em cada página,
ele, que, já aposentado, viria a conviver com o seleto grupo de escritores que
então fazia história no cenário cultural da nossa região: Francisco Nogueira,
poeta por excelência, idealista incansável, fundador de alguns jornais, dentre
eles O Líder, por meio do qual fazia
brilhante trabalho de crítico literário, sempre enaltecendo seus pares,
dando-lhes, sem distinção, incentivo para trilharem seu caminho luminoso e
apoio incondicional aos seus propósitos artísticos; José Lourenço, poeta,
sonetista e admirável trovador, também fundador de periódicos, cujo fim era
sobretudo a literatura; Matilde Diniz Lacerda, professora de grande talento,
que, excedendo o universo das letras, enveredava-se também pela música, pintura
e teatro, mas que no âmbito da escrita mais evidentemente se destacou, com sua
poesia intimista e crônicas em que muito louvou a cidade de Barra Mansa; J. M.
do Lago Leal, poeta e contista exemplar; Eliette Ferreira, poetisa e prosadora
das mais felizes, que, em sua coluna “Gente”, no semanário O Líder, presenteava o público leitor com crônicas de beleza e
lirismo ímpares, além de outros tantos escritores que só não citarei para não
me estender demais. São palavras do próprio poeta que “conheceria a técnica do
soneto graças à professora Eliette”. E não é que, como discípulo, não se saiu
muito bem! Seus sonetos atingem, externa e internamente, um resultado único — entenda-se
aqui aprimoramento, polidez realmente, em que se distingue a preferência pelo
emprego do decassílabo, e este, por sua vez, aleatória, mas consistentemente,
ora heroico, ora sáfico, a que se junta um quê de pessoalíssimo, algo bastante
característico do vate, raramente fugindo aos temas que lhe parecem tão caros,
como o amor, a morte, a solidão e a dor. Em algumas de suas composições do
gênero, temos um poeta até certo ponto aficionado do antropomorfismo, manifesto
nos diálogos por ele travados com objetos de casa: o telefone, a cadeira de
balanço, etc., da rua (uma mesa de bar, por exemplo), e, ainda, com aquele de
sua posse mesmo, isto é, seu violão. No seu todo, afinal, à maneira dos versos
dos velhos seresteiros, os de Menulfo são também chorosos, sentimentais e, por
ele declamados, como que mais nos enlevam. De métrica regular, especificamente
decassílabos, quase monocórdios, tais versos não se restringem apenas aos
sonetos. Há, nesta coletânea, composições outras decassilábicas, e que são
dignas de louvor. O que dizer, por exemplo, dos poemas “Entardecer da vida” e
“Madrugada só”? Mas não nos é surpresa vermos que o bardo, com igual maestria,
trabalha seus alexandrinos, como nas peças “Poema para D. Zazá” e “Meus versos tristes”.
Empregando tal medida esporadicamente, parece sugerir-nos certo desejo de
expansão métrica, quero dizer, de mais musicalidade, ainda que já o tenha feito
espontaneamente, como já dissemos, ao utilizar alternadamente decassílabos
sáficos e heroicos em muitos de seus sonetos, e mesmo nas demais poesias, que,
embora em menor número, são igualmente inspiradoras. Em suma, sendo Menulfo
Nery Bezerra particularmente um poeta de versos medidos, e de medida restrita a
decassílabos e dodecassílabos, não se aventurando por outros metros e nem pelo
verso livre, ainda assim é grande poeta, é poeta acabado. Quanto à sua pessoa,
entretanto, nos fica a impressão de que é uma pessoa algo modesta. Tendo
publicado, em 1999, o volume Retalhos de
percal, pelo Grêmio Barra-mansense de Letras, brilhantissimamente presidido
por Eliette Ferreira, só em 2012, com José Fleming e conosco, no volume
intitulado Haicais, épica & sonetos,
daria a lume o seu Livro de sonetos.
Agora, com Joias do meu relicário, ele afinal se
exime de se ter feito tal injustiça, ao presentear-nos, e sobretudo a si mesmo,
com uma obra cujo destino é eternizar-se.
* Prefácio ao livro Joias do meu relicário.
SER POETA
Ser
poeta é ter a alma sucumbida
Em
sofrimentos, ilusões, quimeras;
É
ter, na morte, o pedestal que a vida
Vem
lhe negando há muitas primaveras.
Ser
poeta é ter na destra um açoite,
Ou
rubra rosa a florejar candores;
É
ser mais triste, quando vêm à noite
Vê-lo
fantasmas de priscos amores.
Ser
poeta é viver imerso em sonho,
É
ter, no peito, um coração tristonho,
É
querer vidas, que não pode tê-las...
É
versejar na madrugada em fora
E
ouvir, cansado, antes do albor da aurora,
Como
acalanto um madrigal de estrelas.
BRISA VESPERTINA
Ó
brisa vespertina suave e mansa,
Tu
vens trazendo na rajada amena
Sopros
de vida, sopros de esperança,
Que
a mão de Deus para o futuro acena.
Brisa
da tarde, estranha carpideira,
Deambulando
no final do dia,
Tu
vais levando aos montes, ribanceiras
Prantos
de mágoas, prantos de agonia.
Tu
só não levas, brisa vespertina,
A
Fé em Deus, luzerna que ilumina
A
senda, que me resta percorrer...
E,
quando a morte vier fechar-me os olhos,
Vencendo
escarpas e a transpor abrolhos,
Dá-me
sentir-te antes de morrer.
A ÁRVORE DA PRAÇA
As
folhas caem da árvore frondosa
E
se esparramam na deserta rua;
A
juriti, no seu cantar, chorosa
Busca
outro ninho sob o clarão da lua.
E
caem folhas, já final de outono,
Quase
à entrada da estação do frio...
Folhas,
que murcham num triste abandono,
Em
decorrência desse longo estio.
As
folhas caem e, na calçada em frente,
Segue
um tapete estranho, diferente,
De
folhas secas, que perderam a cor...
E
a árvore nua, sob o vento assiste
Às
folhas que se vão e do seu cerne triste
Brota
um lamento de saudade e dor...
MANHÃS JUNINAS
Manhã
brumosa, friorenta e calma,
Manhãs
de junho, elas são assim:
—
Esbranquiçadas, e nos trazem à alma
Brumas
doridas do que teve fim.
Manhã
de junho, a passar bisonha,
Nesse
cortejo alabastrino e frio,
Tão
solitário este poeta sonha,
Versificando
num letal fastio.
Manhã
de junho, nevoenta e baça,
Cuja
neblina sob o sol se esgarça
E
que faz nimbo lá no plúmbeo céu...
Deixa
esvair-se, ó manhã silente,
Em
tua bruma, a cruel dor
Deste
que vive amargurado e ao léu...
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