sexta-feira, 13 de setembro de 2024

 

MENULFO NERY BEZERRA 

E SUA POESIA 

CREPUSCULAR*

 

Menulfo Nery Bezerra, natural de Salvador, barra-mansense por adoção, nos brinda este ano com a publicação de seu mais novo trabalho: Joias do meu relicário, composto em grande parte de sonetos (cujo desafio assumiu por conta de sua amizade com a mestra e prosadora Eliette Ferreira), mas em que se destacam também outras composições que em nada ficam devendo ao modelo de forma fixa de origem italiana do século XIII. Trata-se mesmo de um relicário tão primorosa coletânea de versos, a que o poeta deu tanto de si em cada página, ele, que, já aposentado, viria a conviver com o seleto grupo de escritores que então fazia história no cenário cultural da nossa região: Francisco Nogueira, poeta por excelência, idealista incansável, fundador de alguns jornais, dentre eles O Líder, por meio do qual fazia brilhante trabalho de crítico literário, sempre enaltecendo seus pares, dando-lhes, sem distinção, incentivo para trilharem seu caminho luminoso e apoio incondicional aos seus propósitos artísticos; José Lourenço, poeta, sonetista e admirável trovador, também fundador de periódicos, cujo fim era sobretudo a literatura; Matilde Diniz Lacerda, professora de grande talento, que, excedendo o universo das letras, enveredava-se também pela música, pintura e teatro, mas que no âmbito da escrita mais evidentemente se destacou, com sua poesia intimista e crônicas em que muito louvou a cidade de Barra Mansa; J. M. do Lago Leal, poeta e contista exemplar; Eliette Ferreira, poetisa e prosadora das mais felizes, que, em sua coluna “Gente”, no semanário O Líder, presenteava o público leitor com crônicas de beleza e lirismo ímpares, além de outros tantos escritores que só não citarei para não me estender demais. São palavras do próprio poeta que “conheceria a técnica do soneto graças à professora Eliette”. E não é que, como discípulo, não se saiu muito bem! Seus sonetos atingem, externa e internamente, um resultado único — entenda-se aqui aprimoramento, polidez realmente, em que se distingue a preferência pelo emprego do decassílabo, e este, por sua vez, aleatória, mas consistentemente, ora heroico, ora sáfico, a que se junta um quê de pessoalíssimo, algo bastante característico do vate, raramente fugindo aos temas que lhe parecem tão caros, como o amor, a morte, a solidão e a dor. Em algumas de suas composições do gênero, temos um poeta até certo ponto aficionado do antropomorfismo, manifesto nos diálogos por ele travados com objetos de casa: o telefone, a cadeira de balanço, etc., da rua (uma mesa de bar, por exemplo), e, ainda, com aquele de sua posse mesmo, isto é, seu violão. No seu todo, afinal, à maneira dos versos dos velhos seresteiros, os de Menulfo são também chorosos, sentimentais e, por ele declamados, como que mais nos enlevam. De métrica regular, especificamente decassílabos, quase monocórdios, tais versos não se restringem apenas aos sonetos. Há, nesta coletânea, composições outras decassilábicas, e que são dignas de louvor. O que dizer, por exemplo, dos poemas “Entardecer da vida” e “Madrugada só”? Mas não nos é surpresa vermos que o bardo, com igual maestria, trabalha seus alexandrinos, como nas peças “Poema para D. Zazá” e “Meus versos tristes”. Empregando tal medida esporadicamente, parece sugerir-nos certo desejo de expansão métrica, quero dizer, de mais musicalidade, ainda que já o tenha feito espontaneamente, como já dissemos, ao utilizar alternadamente decassílabos sáficos e heroicos em muitos de seus sonetos, e mesmo nas demais poesias, que, embora em menor número, são igualmente inspiradoras. Em suma, sendo Menulfo Nery Bezerra particularmente um poeta de versos medidos, e de medida restrita a decassílabos e dodecassílabos, não se aventurando por outros metros e nem pelo verso livre, ainda assim é grande poeta, é poeta acabado. Quanto à sua pessoa, entretanto, nos fica a impressão de que é uma pessoa algo modesta. Tendo publicado, em 1999, o volume Retalhos de percal, pelo Grêmio Barra-mansense de Letras, brilhantissimamente presidido por Eliette Ferreira, só em 2012, com José Fleming e conosco, no volume intitulado Haicais, épica & sonetos, daria a lume o seu Livro de sonetos.

Agora, com Joias do meu relicário, ele afinal se exime de se ter feito tal injustiça, ao presentear-nos, e sobretudo a si mesmo, com uma obra cujo destino é eternizar-se.     

 23/11/2023  

    * Prefácio ao livro Joias do meu relicário.

 

SER POETA

 

Ser poeta é ter a alma sucumbida

Em sofrimentos, ilusões, quimeras;

É ter, na morte, o pedestal que a vida

Vem lhe negando há muitas primaveras.

 

Ser poeta é ter na destra um açoite,

Ou rubra rosa a florejar candores;

É ser mais triste, quando vêm à noite

Vê-lo fantasmas de priscos amores.

 

Ser poeta é viver imerso em sonho,

É ter, no peito, um coração tristonho,

É querer vidas, que não pode tê-las...

 

É versejar na madrugada em fora

E ouvir, cansado, antes do albor da aurora,

Como acalanto um madrigal de estrelas.

 

BRISA VESPERTINA

 

Ó brisa vespertina suave e mansa,

Tu vens trazendo na rajada amena

Sopros de vida, sopros de esperança,

Que a mão de Deus para o futuro acena.

 

Brisa da tarde, estranha carpideira,

Deambulando no final do dia,

Tu vais levando aos montes, ribanceiras

Prantos de mágoas, prantos de agonia.

 

Tu só não levas, brisa vespertina,

A Fé em Deus, luzerna que ilumina

A senda, que me resta percorrer...

 

E, quando a morte vier fechar-me os olhos,

Vencendo escarpas e a transpor abrolhos,

Dá-me sentir-te antes de morrer.

 

A ÁRVORE DA PRAÇA

 

As folhas caem da árvore frondosa

E se esparramam na deserta rua;

A juriti, no seu cantar, chorosa

Busca outro ninho sob o clarão da lua.

 

E caem folhas, já final de outono,

Quase à entrada da estação do frio...

Folhas, que murcham num triste abandono, 

Em decorrência desse longo estio.

 

As folhas caem e, na calçada em frente,

Segue um tapete estranho, diferente,

De folhas secas, que perderam a cor...

 

E a árvore nua, sob o vento assiste

Às folhas que se vão e do seu cerne triste

Brota um lamento de saudade e dor...

 

MANHÃS JUNINAS

 

Manhã brumosa, friorenta e calma,

Manhãs de junho, elas são assim:

— Esbranquiçadas, e nos trazem à alma

Brumas doridas do que teve fim.

 

Manhã de junho, a passar bisonha, 

Nesse cortejo alabastrino e frio,

Tão solitário este poeta sonha,

Versificando num letal fastio.

 

Manhã de junho, nevoenta e baça,

Cuja neblina sob o sol se esgarça

E que faz nimbo lá no plúmbeo céu...

 

Deixa esvair-se, ó manhã silente,

Em tua bruma, a cruel dor

Deste que vive amargurado e ao léu...


Nenhum comentário:

Postar um comentário