NOVA ANTOLOGIA POÉTICA
NO QUE DIFEREM
Diferentes dos animais domésticos
são os animais silvestres. Pintainhos,
por exemplo, soltos
cevas, e dóceis
te acompanham, ao teu encontro,
se os chamas, vêm, não se afastando jamais
do teu quintal.
Galos quase, um dia
os atrais para junto de ti,
súbita e traiçoeiramente
dá num tua mão bote certeiro,
e o degolas para o almoço,
que para isso os criamos,
afinal.
Já um papagaio, que porventura,
filhote, tenhas roubado ao ninho,
crias, alimentas,
mas tens de cortar-lhe a asa.
E, porque achas que ainda lhe seja
espaço demais o chão da casa,
lhe pões tu num dos pés
um mimo de corrente
e o condenas a um poleiro,
ao teu ver,
suficiente.
E dormes, aconchegado dormes...
Ele, preso, dorme.
E acordas, tomas café.
Ele, preso, grita
por cafuné,
que não lhe fazes. (Pouco te é o tempo,
não é verdade?)
E ao trabalho vais.
Depois, a um bar.
Sorris, bebericas, degustas,
te distrais.
A casa voltas, enfim:
— “Que dia!”
Range o portão...
Beijas os teus.
E ele, preso, grita que grita
pelo que não lhe dão.
Um dia o libertas da corrente.
A asa crescida, por descuido teu,
foge. E grita que grita,
grita
lá do mato.
Não
sabe voltar.
Mas tu, ah, mais os teus...
(Ah, vossos compromissos!)
Tem ele por destino, então, outra corrente,
pior que a tua,
ou a boca de um gato.
À VIDA NÃO LHE É DADA
À vida não lhe é dada,
na juventude, a devida importância,
por se ter (se julgar ter) todo
o tempo do mundo. Então,
extrapola-se, cede-se
aos excessos com o álcool,
as drogas, vitaminas; passam-se
noites em claro; acelera-se o carro,
a motocicleta, a lancha a
não poder mais. Deixados mesmo
são os cuidados com o corpo, parceiro
na aventura terrena. Enfim,
se peca
irrefletidamente; e se paga,
às vezes,
caro.
Ocorre, entretanto, irmos
dando à existência o seu devido valor
à medida que envelhecemos,
à medida
que se nos encurta o tempo. E esse valor,
então, fica evidente em pequeninas
coisas. Cuidados
haverá com a alimentação
como exercícios moderados para
o corpo, parceiro que resistiu
às horas descomedidas,
exabundantes, ex-
cessivas da
mocidade solta.
Agarramo-nos, afinal, à vida. E inimaginável
é essa mudança àqueles que ainda gozam de seu pleno verdor.
IMPROVISO EM LOUVOR DAS PAIXÕES
I
Pássaro
que, na primavera, pacientemente,
instintiva-
mente
constrói o seu ninho no galho escondido
duma árvore em flor
e, finda a estação,
tão
subitamente,
mais que de repente,
se vai
— o amor.
Fogo
que à madeira consome
e que as mãos aquece
a um ser solitário,
a um pobre de um homem
no interior
de sua choupana, em noite de inverno,
no ar se esvanece,
se esvai
—
o amor.
Fruto
silvestre
cuja polpa, ávidos, os pássaros comem
tal num ritual,
e, ainda agarrado ao tronco soberbo
da planta nascida ali por acaso,
no amplo quintal,
oco, se esquece em seu lento crepúsculo
e, por fim, desprende-se
e cai
— o amor.
II
Ao amor, contudo, um brinde
(com a mais sincera alegria!),
que, finito ele embora,
um fruto que se devora,
ainda que um só momento,
a
nossa fome sacia.
Ao amor, contudo, um brinde,
que, ainda que um só momento,
com sua presença aquece,
na medida em que ele arde,
na medida em que ele é chama,
o nosso ser friorento.
Ao amor, contudo, um brinde,
que, ainda que um só momento,
de nós faz ele uma árvore
eleita, em plenitude,
porque em nós é que constrói
seu ninho, muito e amiúde.
21/5/2006
OUTONO
Outono. As folhas se desprendem dos
galhos outrora verdes e viçosos,
perdendo-se no vácuo. Para onde
as levarão os ventos a tocar
os seus tambores? Que destino elas
terão à margem dos caminhos ermos
ou junto à branca fonte murmurante
senão o termo de sua existência?
Repousam muitas no fundo dos lagos.
E outras às raízes alimentam
da relva rude no emaranhado.
Outono. Reflexões...
Como essas
folhas
caídas são os nossos dias; ah!
como essas folhas peregrinas,
quantos
esforços nossos e quantos desejos,
quanto de nossa luta, de nós mesmos
levado pelo vento, em redemoinhos!
Mas se existem os sonhos e se há
o poder de se restabelecer
e ao mundo gritar que se está vivo,
não nos desesperemos e, à inércia,
jamais nos entreguemos. Ainda que
sem todo o entusiasmo do começo,
posto que exaustos e um tanto
ébrios,
e alheios que estejamos mesmo
àquilo
de que antes mão jamais nós
abriríamos,
não nos rendamos, não. Sigamos,
juntos.
Juntos lutemos pelo que nos resta.
Adiante, pela vida, há chão, há
mundos.
Órfãos dos galhos verdes da estação
florida, aos poucos descobrimos,
todos:
o tempo se renova a cada instante,
por meio de um broto que desponta,
na água que cai do alto de uma
rocha,
no voo de um pássaro escarlate.
E assim, nos renovamos cada dia.
Nossa fortuna é, que tarde vemos! —
o chão que temos sob nossos pés
e o céu profundo que nos segue
sempre.
2006
O EXEMPLO DAS COISAS
O exemplo sigamos
da abelha, que voa
de uma a outra flor:
recolhe-se o dia,
mas ela persiste
em seu sonho de mel.
Errado é pararmos
e nos lamentarmos
ante um empecilho.
O fruto mais doce
de nosso trabalho
é à custa de esforço.
Tendo o inverno sido
sem ventos nem geada
ou sido cruel,
ao sol da estação
mais bela, não se abrem
— em flores, os campos?
O espelho dos lagos,
fiel é a si mesmo,
ao céu refletindo,
esteja este limpo ou
de nuvens medonhas
se feche ruidoso.
De um modo assim,
corra alegre o dia,
ou triste, cumpramo-nos.
CONQUANTO
SEJA A HORA TENSA
Ainda que a dor,
imensa,
te fira como uma
espada;
e, em súbita
emboscada,
o inimigo ora te
vença;
ainda que a tua
crença
esteja, enfim,
abalada;
cara que seja, a
presença
de um irmão não
tolerada;
conquanto seja a hora
tensa,
e a tua alma,
entrevada,
não faças menor
ofensa
ao céu, à vida e a
nada.
Parece-te a noite
extensa?
Bem sabes: breve é
passada.
E a bruma, por mais
que densa,
dá vez à luz da
alvorada.
Ó natureza, pela mão divina
abençoada!... A passar, mansa corrente
de água fresca, pura e transparente,
nascida sob a rocha, na colina...
Este sol, este céu, uma felina
pegada que se vê na areia ardente...
Natureza... A soprar, brisa contente...
Esta extensão... um lírio... a eritrina...
Natureza... O chilrear das tagarelas
aves nos ninhos, o gemer da fonte,
e o desenho daquelas nuvens belas...
Natureza... A sombra, o entardecer...
A linha avermelhada do horizonte...
Uma primeira estrela, no alto, a arder...
Sejamos todos como a flor no galho,
toda dádiva, oferta, resplendor,
ah! sobre a qual tremulamente o orvalho
à alma nos fala do mais puro amor.
De não se achar, em cada esquina, igual;
dos que se dão sem, em troca, cousa alguma;
com um quê de ingênuo, um tanto natural;
por natural e ingênuo, feito pluma.
Sejamos, todos, qual rosa em botão:
em nós se mostre Deus, tremulamente;
e, assim, que chegue, a cada coração,
nunca volúvel o amor, mas consistente.
Jamais fingido, porém verdadeiro;
que todo o bem da vida enfim resuma.
Eterno... eterno... nunca passageiro...
Só comparável ao divino, em suma!
MANHÃ DE NOVEMBRO
Manhã
de novembro, com sol
e umas poucas
nuvens paradas,
brancas e paradas,
no céu. Vou
pelo passeio, notando
o persistente trabalho das formigas.
No chão, folhas picotadas
da galharia renovada,
que são por elas transportadas,
bem como suas companheiras
mortas por nossos pés,
curiosamente tão maiores que aquelas
que as vão puxando,
que, talvez
— quem sabe? —,
chegarão a crescer ,
cumprindo sempre
o seu papel,
labutando, labutando,
até que morram, também,
naturalmente (muito pouco
provável, é bem verdade),
por fogo, veneno ou,
como as irmãs que vão pacientemente carregando,
sob nossos pés.
DOS LIVROS QUE NOS MARCAM
Dos livros que nos marcam
não falo apenas do conteúdo em si.
O que deles nos fica
são mínimos detalhes, como
gravuras, se as há,
design da capa, tipo
de fonte, etc.
Tendo eu ganhado um
volume novo da poesia completa
de Manuel Bandeira, desfiz
da velha edição de 1974, a qual, jovem,
adquirira de um livreiro que
uma vez ao mês montava barraca
na Vila Santa Cecília.
E não é que
recentemente deparei num sebo
com outro exemplar dessa edição, e,
não resistindo, tomei-o
nas mãos, com carinho
folheei-o, quase
a acariciá-lo, e não
acabei levando-o!
QUEIMADA
Terá sido uma ponta de cigarro
atirada inadvertidamente por alguém
passando de automóvel? Terá sido
um fósforo riscado de propósito
junto à palha de uma gramínea dessecada
pelo inverno rigoroso?
Terá sido...?
É incerta a origem do fogo
que, pasto acima, arderá toda a noite e deixará
atrás de si, sob cinzas,
uma infinidade de insetos,
répteis, pequenas aves
a jazer carbonizados.
Adquirira, em Minas,
pequena propriedade rural
e, por esse tempo,
costumava passar finais de semana
e feriados ali,
junto à natureza,
respirando o ar puríssimo da roça
e gozando do seu sossego.
E justamente num desses passeios
foi que eu dei pela falta dos tico-ticos
e tizius — passarinhos que um dia
habitaram nossos quintais,
e que não tinham o menor valor comercial,
diferentemente dos
pobres dos canários e trinca-ferros,
que eram caçados e condenados,
por causa de seu canto,
à prisão perpétua em minúsculas gaiolas,
das quais grande parte
era construída com hastes de folha de embaúba
e varetas de bambu, tendo fundo
improvisado com lata
ou papelão. Lembro-me
de que as pobres das aves,
na vã tentativa
de se libertarem do cárcere, tanto,
mas tanto
se debatiam
que
causavam escoriações em torno ao bico.
Mas, ainda sobre os tizius
e tico-ticos, o que ocorrera
com eles, qual
a razão do seu sumiço?
Em visita a um de nossos vizinhos
teria a resposta.
Notara a presença de alçapões armados,
embora na casa
não houvesse qualquer pássaro preso.
Daí, questionada a finalidade das armadilhas,
a confissão, espontânea,
de que as roças de milho eram muito prejudicadas pelos passarinhos.
Nem foi preciso se prosseguisse a conversa,
eu já tinha a resposta,
não só sobre a finalidade dos alçapões armados
como à pergunta que a mim mesmo me fizera,
acerca do desaparecimento
dos tico-ticos e tizius, que,
juntamente com rolinhas, sanhaços, sabiás
um dia povoaram nossas matas.
DE UMA FOLHA
(ELEGIA)
Que escaldante este sol de verão!
Ontem, surpreendeu-me
uma rajada de vento. Rota,
às intempéries tenho resistido.
E demoradamente amareleço. (Inveja
tenho às irmãs a que assisto caindo,
serena e ritmadamente,
afinal desprendidas
do galho que as trazia aprisionadas.)
as palmas-de-são-josé e as margaridas;
bela é a igreja com sua escadaria;
e, atrás dela, belo é o arvoredo,
onde sussurra o vento feiticeiro;
e a linha férrea que daqui se avista,
cortando o vale, triste e solitária;
o velho casario; e as janelas
e portas para a rua, sempre abertas;
no ar lavado, que então a abraça;
e a música tão pura de suas asas
batendo em busca de um beiral; e bela,
esta vontade de a poder pegar,
em minhas mãos em concha, de trazê-la
até meu peito, ainda que um instante,
e de afagar-lhe o dorso com o fascínio
de quem o faz pela primeira vez...
do qual já não me lembro muito bem,
senão de que atendia por meu nome
e, como qualquer outro, descobria,
nas coisas à sua volta, a mão divina!
ECLESIÁTICO 41: 3
a mesa tem farta,
de mil iguarias
provando diário,
melhor que se diga
— se empanturrando;
àquele que dorme
na cama macia
de um quarto arejado
e tem sonhos bons,
povoados de anjos,
a morte é agravo,
e dói pensar nela.
Porém a sentença
de morte nem tanto
é amarga e cruel
ao desenganado
a quem mesmo um gesto
a doença lhe tolhe;
e àquele que se acha
no leito entrevado;
e ao velho que treme
nas noites de frio
sem doces palavras,
presença de um filho,
e, sem paciência,
blasfema e lastima,
— a esses a morte
não ceifa, acolhe.
Num doce sítio distante,
onde se pode, afinal,
gozar do que é natural,
inda que seja um instante,
o avô leva, com carinho,
o netinho pela mão;
e apresenta-lhe um pavão,
bem como lhe mostra um ninho;
a rês malhada, tão mansa,
distraidamente a pastar,
a fonte lenta a passar,
o junco, que ao vento balança.
Mostra-se o homem feliz
nesse momento tão pleno,
e igual está o pequeno,
para quem aquele diz:
— “Que por tudo agradeçamos,
pelo que haja à nossa volta!
Que gorjeio que a ave solta!
Que perfume, o destes ramos!
Propósito a natureza
e tudo mais tem pra conosco:
tem valor o seixo fosco,
sendo que não é turquesa:
nos calça ele o chão de terra
e nos livra da poeira;
pobre, a flor da abobreira
que surpresa não encerra!
Humilde, nos mata a sede
a fonte ali escondida;
se nos prostra a diária lida,
terna nos recebe a rede.
De prontidão, sempre, a enxada
a um canto, silenciosa,
faz-se afinal milagrosa
se por nós manipulada.”
tais palavras bem compreende
e a tudo ali se rende
o menino, satisfeito.
E, em dobro, o coração
satisfeito do avô fica,
que, singelo no que explica,
das coisas sabe a lição.
__________
O chão, o arado, a flor, a espiga,
vento, sol, chuva a molhar,
tudo é oferta — se diga —,
desejo de partilhar.
Um ganido arrastado, triste. É
que está só
o dia todo. Todos
os dias. Entre
quatro paredes
altas, não tem
contado com a rua, com
o mundo.
Não lhe ouvem o choro
demorado.
Trabalha-se muito
hoje em dia. E
ao se chegar em casa,
já se está cansado. O instante
em que abrem a porta
da cozinha (ao pé da qual
passa quase todo o tempo)
e vão até seu pote de ração,
levar-lhe a porção diária,
é mínimo. Mínimo,
e, ainda assim, por
sua manifestação de
alegria, repreendem-no
quase sempre.
no seu chiado doloroso, que,
quase soluçado, é como
um pedido de misericórdia.
de com ele passear
uns minutos por dia, ao menos.
Mas,
como disse,
não
lhe ouvem o choro.
Trabalha-se muito, muito
hoje em dia. E
ao se chegar em casa, já
se está mesmo alquebrado.
E ai desse cão!...
não se limita
a um ganido apenas, trata-se
do drama de um ser que,
conquanto não seja
propriamente humano, traz
consigo
muito de nós, como
necessidade de atenção,
companhia, e
sobretudo,
de liberdade, o que, entanto,
lhe foi
e será sempre
negado. Pouco
é o tempo,
a paciência, a
consciência,
tudo.
.................................................................
Agora
está ganindo.
Um ganido arrastado,
triste. É que está só
o dia todo. Todos
os dias. Entre
quatro paredes,
indiferentes.
mágica hora.
No longe, agora,
em chamas arde,
grande, esplendor,
doce rebanho
de nuvens, por
pastor levado
pelo belíssimo,
celeste prado.
admirá-lo,
da ribanceira
galga um cavalo
árduas escarpas.
De um lago à flor
juntam-se carpas.
entre as boninas;
pelas campinas
quantas ovelhas!
da estrada à margem.
Por monte ou vargem,
quantas se espalhem,
da mão divina.
N’água da mina
ou boqueirão;
de algum coleiro,
ou no primeiro
astro a brilhar;
pela amplidão,
em que Deus não
se manifesta
do entardecer,
que em cada ser
fervor imprime?
corre estes campos!
Dia agoniza.
Já pirilampos...
aves em bando
agitam as plumas
pra lá voando.
que a sede urgente
de graça — fonte,
sacia à gente.
ante a beleza
do que se mostra
na natureza.
A CHEGADA DO AMOR
Cabisbaixo, entre as flores me encontrava,
tão várias, com que os campos, langorosa,
adorna a primavera. Ah, se apagava
de meus olhos a chama esperançosa!
— “Que sentido, meu Deus! — me interrogava —
há nesta vida fútil, dolorosa,
em que as pessoas mandam-me à fava
quando lhes falo da alma mais chorosa?”
Sentia-me pequeno, e dissolvido
estava no fel de minha pequenez...
Foi quando um vulto claro apareceu
e de novo criança então me fez,
e tudo aquilo que havia perdido,
em lágrimas e amor, me devolveu.
1989
ETERNO
Passemos sobre a terra como o vento,
louvando a Deus, cantando o amor, a vida,
fazendo menos dura a nossa lida,
fazendo eterno e mágico um momento.
A maior bênção é ter contentamento
e amar, porém de forma desprendida,
da nuvem nômade à pétala caída;
ter larga a alma, como o firmamento!
Na possibilidade de vencer,
de ver mudar-se, súbito, o destino,
mais do que tudo, do que tudo, crer!...
Mas com a simplicidade de um menino
a abrir os braços para o amor materno,
que todo o envolve, e abraça e beija —
eterno...
25/3/2002
EM DIAS DE UM ABRIL
Andar contente, em dias de um abril,
pelas campinas verdes recendendo;
olhar-lhes as flores e as ir colhendo,
debaixo deste claro céu de anil...
Beber da água fresca de um cantil;
provar frutos silvestres, revivendo
a infância mágica; e ir percorrendo
caminhos que se perdem, pueril.
Descansar de um arbusto à sombra amena;
sentir no vento o cheiro da açucena;
e assim ficar, despreocupado, em paz —
enquanto brilha, arde o sol, a pino,
e alegre canta o riacho cristalino
à sombra destas matas tropicais!
2002
CONVITE
Ó
visitantes, entusiasmados
esta
cidade vede, pequenina:
olhai-lhe,
com prazer, cada colina;
olhai-lhe
os rios e os tão férteis prados!
A
velha arquitetura dos sobrados;
as
rosas dos jardins, uma bonina!
Os
chafarizes, de água cristalina;
os
pátios, pelos fícus sombreados.
Aqui,
ladeiras; adiante a praça...
Olhai-lhe
mesmo uma porta-e-janela,
que,
inda que pobre, há de ter lá sua graça!
— “Que
fada boa fez terra tão bela —
pois
vos perguntareis — tão bela e calma,
que
ter parece como que uma alma?”
17/1/2003
DEUS PRESENTE
Contemplo, à minha volta, o esplendor
de tudo quanto existe de mais puro
na natureza: desde a simples flor
que nasce por acaso rente ao muro,
e, embora frágil, vence este chão duro,
à árvore que os braços, com amor,
estende, e a cuja sombra o homem seguro
está do sol a pino, abrasador...
À minha volta, escuto o rumorejo
de aves... e ventos... ah! de tudo, enfim!
E em quanto escuto, quanto toco, vejo,
em tudo há graça, há encanto e arte...
Há Deus! E estando em tudo Deus, acho-O, assim,
cá, adiante, mais longe, em toda a parte!
2000
SOBRE A FORÇA INTERIOR
Há um ser dentro de nós, desconhecido,
que as coisas muda sem que nós vejamos;
que à nossa vida dá outro sentido,
contrário às vezes ao que desejamos.
Em nossa ignorância então levamos
para o alto a fronte, como que indignados,
ou baixamos os olhos, resignados,
e, sem estímulo, sequer sonhamos...
Tomemos nós, porém, conhecimento
de que à vida o outro sentido dado
deve-se ao fato de não ser obreiro
a favor nosso, então, o pensamento:
que muda em fato, esse ser ignorado,
o que tomamos nós por verdadeiro.
1992
ESTRANHA NAU
Viva é toda palavra proferida;
vivo é, também, o nosso pensamento:
seguindo só seu curso obscuro e lento,
terá um porto a nau, no mar perdida.
Não se dispersará, triste — no vento,
tua oração, o teu amor, e a vida
há de resplandecer toda florida,
e, mais largo e azul, o firmamento.
Não é tão feio e tão medonho o mundo;
contempla, um só minuto, a natureza,
que foi criada pela mão divina!...
Atende apenas ao teu ser mais fundo;
e segue teu caminho, na certeza
de que é real a luz que te ilumina.
16/9/2002
DEIXA QUE A ALMA SE LIBERTE...
Deixa que a alma se liberte e cante,
que se liberte e cante de verdade!
Liberta, seu cantar belo e vibrante
há de buscar, em paz, a imensidade...
Ah! não reprimas a emoção no instante
em que aflore tua sensibilidade!
Quão triste é uma palavra dissonante
vinda do vago claustro da saudade!...
Deixa que a alma se liberte e voe,
e um hino à vida, sem igual, entoe
e, entoando-o, alcance o coração
de um outro ser, de alma fabulosa,
a qual se abra tal como uma rosa,
à qual te rendas — fascinado — então!
11/10/2002
Ó MEU INSTANTE...
Ó meu instante de meditação,
instante em que minh’alma se debruça
sobre as colinas, sobre a estrada; e o chão
da estrada, então, parece que soluça...
Hora de adeus da ave-maria, não
te amo pouco: eu te amo como se ama
a natureza em festa; e o coração,
aqui — dentro em meu peito, te reclama!
Não canto o dia, o rei fiel, robusto,
cuja missão de novo está cumprida,
e agora, envolto na penumbra, dorme...
Também não canto a noite definida...
A ti eu canto, e o teu mistério augusto,
e o teu errante espectro multiforme!
5/6/2002
NOITE ALTA
Noite alta, de luar e arminho
a enfeitiçar o coração da gente...
Há flores alvas ocultando o espinho,
pétalas brancas indo na corrente...
Sombras de arbustos tremem no caminho
por onde vou, nem triste nem contente,
e onde reluz a areia, de mansinho,
e mesmo as pedras, muito docemente...
Oh! dorme, dorme à luz da lua cheia,
velada por uns poucos (e por mim),
a natureza o seu sono sem termo...
Uma folha, adiante, corcoveia;
e este barulho é o vento; e é o vento, enfim,
o murmúrio das almas pelo ermo...
Santa Rita de Jacutinga, 2003
DOCE ESPERANÇA BATE...
Doce esperança bate à minha porta:
ouço-a bater, oscilo; mas, aberta
a porta, entra, entra e me conforta
a alma até então erma, deserta.
Faz com que nasçam flores pela horta;
e pássaros que doce cantam, certa,
faz surgir pela casa. E nada importa,
agora, além dela. Ficai alerta,
todos, que ela chega a qualquer hora,
a esperança, e às vezes, distraídos,
sem ver, deixamos que se vá embora —
ficando a vida cada vez mais triste,
a alma, vazia... os sonhos, esquecidos...
e morto, ao redor, tudo o que existe!
1º de agosto de 2001
NÃO LASTIMES O DIA QUE TERMINA...
Não lastimes o dia que termina,
nem te deixes levar pela tristeza:
põe-se o sol e adormece a natureza
qual, nos braços da mãe, uma menina,
para depois de novo despertar,
tal qual uma criança, alegre e calma;
já a tristeza faz murchar a alma,
descrer o espírito, perder-se o olhar...
Não fujas, nem te entregues ao desgosto!
Crê no trabalho e esforço do teu braço,
no suor que te corre pelo rosto!
Recompensa-nos Deus pelo cansaço
causado pelo que se faz com gosto,
ao dormirmos em paz no seu regaço.
1999
SONETO DE APROXIMAÇÃO
A vida, ao teu redor, vê com alegria;
nos jardins, conta as flores que se abriram;
esquece as murchas, já sem poesia,
e aquelas cujas pétalas caíram.
Retém, do lábio teu, tudo o que é bom,
e as linhas do sorriso do teu rosto;
não te deixes levar pelo desgosto,
nem digas nada em pesaroso tom.
Que saibas rir, malgrado o sofrimento;
não te incomode nunca a noite escura,
tampouco, por teu corpo, as cicatrizes...
Guarda que as nuvens as dissipa o vento,
e que a árvore que mais alcança altura
tem mais fundas, no chão, suas raízes.
1999
URGÊNCIA
Sê verdadeiro, puro, transparente,
e tu te sentirás mais leve então:
sorriso franco, aberto o coração,
acolherás, no seio, muita gente.
É este o prêmio; a mudança, urgente!
Sê cristalino e verdadeiro, irmão...
Descalça os pés e a terra grata sente,
e o verde que, feliz, brota do chão.
Desprende-te de tudo e, enfim, liberto,
não te será o mundo mais deserto
e inatingíveis as regiões celestes!...
Desfaz-te desse instinto de defesa;
olho no olho, faz gestos de certeza,
e arranca os véus com que as palavras vestes!
1999
SOBRE A SABEDORIA
Como um homem que a terra ara e semeia,
vai ao encontro da sabedoria;
com paciência, aguarda pelo dia
em que terás, de frutos, a mão cheia.
Dela aproxima-te, alma e coração
repletos de certeza, confiantes.
Segue-lhe os passos; não a deixes, não,
que a vida, amigo, é a soma dos instantes.
Faz com que agora ouça o teu ouvido;
com que teus olhos possam ver, agora;
e te arrepende do mal que tens nutrido.
Guarda que a luz se vê melhor nos breus,
da noite escura é que desponta a aurora;
com a caridade é que se chega a Deus!
21/11/1999
À HORA DAS
AVE-MARIAS
O dia se despede. A sombra avulta...
A beleza plácida e triste dos entardeceres fere os meus olhos baços, entranhando-se em meu peito.
Eu quisera contar como vêm despontando as estrelas geladas;
quisera inspirar-me nos astros distantes e sorver o mistério do universo, a graça
que palpita em cada corpo celeste;
quisera inspirar-me nas flores ao alcance de minhas mãos e sorver a mágica do mundo, o segredo que pulsa
em cada vida sobre o deserto,
sob as matas e junto às rochas, às margens dos rios e à flor de suas águas, e lá no fundo delas;
e dentro do mar e no céu acima dele;
quisera inspirar-me nas vagas sobre que se debruça a asa escura da noite e deixar-me ir, e deixar-me ir ao sabor dos pensamentos...
Natureza,
minha voz se cala para eu escutar-te,
minhas pernas seguem teu rastro instintivamente,
meus olhos abrem-se para que eu te contemple em paz e, por meio de ti, chegue a Deus;
minha solidão abre-te os braços numa espécie de êxtase,
e és, então, meu próprio espírito
— liberto.
NOITE NO CAMPO
Eis o luar pelas quebradas fora,
prateando o ermo, a solidão, a noite.
Gelado passa o vento pelo rosto
daqueles que se vão pelos caminhos.
E aqueles cujo sono chega tarde,
nas janelas, debruçam-se absortos,
talvez vendo o luar pelas quebradas,
prateando o ermo, a noite, a solidão.
Há pouco rindo sob o olhar materno,
sonha agora a criança um sonho doce,
cheio de anjos a brincar de roda,
vestes colegiais, num pátio azul.
Qual se orvalhasse os sonhos a tristeza —
a tristeza da noite — noite adentro,
deixa-se a alma levar, deixa-se lânguida
levar, perdida em pensamentos, longe...
Pia à beira da estrada uma coruja,
e a escutamos quase por acaso.
Gelada corre a aragem devagar;
recende a murta no jardim da casa.
Perfume e nostalgia emanam flores;
escondem folhas verdes o alvo ninho.
E as impressões nos vêm como segredos,
e as sensações nos vêm num acalanto.
A noite, amiga minha, é sugestiva,
tal como é mansa a voz com que me falas,
tal como é branco o branco do teu busto,
como são vagos nossos sonhos tristes.
Passa Vinte, outubro de 1999
OS RIOS
Os rios estão morrendo.
Demos há muito pela falta de seu claro espelho,
e parecem-nos espectrais as um dia doces plantas
ribeirinhas.
(Uma garça
os sobrevoa às vezes no sentido do crepúsculo,
raro momento de poesia com que ainda nos presenteiam.)
— Sujos dos despejos das cidades e do veneno das indústrias, agonizam.
Primavera de 2006
DIAS E NOITES
Dia após dia, noite após noite, cada
instante, o homem luta por espaço,
guerreia pelos seus e lágrimas
verte, e estanca o sangue, e come o que
lhe é servido (grande
é seu padecimento);
sua perseverança, porém,
é o seu estandarte; flâmula ao vento — a sua
fé,
com a qual
não desmorona, com a qual
é sentinela de si mesmo.
11/9/2005
ATRÁS DO PÃO, DE TRABALHO
Firme, segue o homem para as grandes cidades
atrás do pão, de trabalho, do estudo da prole,
da subsistência afinal; e já não importa
seja da serra, do sertão ou do pampa:
funda-se na nova terra, doce e amarga
como se fora a própria, ou não
— porém onde, de seu viver,
se edificam as colunas;
onde se faz, mais que fumaça:
raízes.
4/9/2005
MOMENTO
Pela manhã, de céu claro
ou cinza, ou pela tarde
rumorosa,
ou na quietude da noite,
povoada de estrelas ou erma delas,
por um instante, não mais,
que os nossos olhos se voltem para o alto,
e que reflita — cada coração: que há frio, que
há fome.
E, generosamente, o pão seja partido, e a veste
que já não sirva para este ou para aquele
possa cobrir o ombro nu.
NÃO QUE TENHAMOS SIDO CRIADOS
Não que tenhamos sido criados à imagem e semelhança de Deus,
e nos tenha sido legado o domínio sobre as demais criaturas;
creio — isto sim! — nesse dom concedido,
que é o da sensibilidade.
De divino, em nós, é o fascínio que nos desperta mesmo a flor mais singela.
Admito a existência de uma alma até num ramo. E no vento,
que, ao ramo tocando, murmura e, murmurando, conosco se comunica
— intimamente.
2006
FAZ DA NATUREZA TUA CASA
Que doce remanso (e saber que um peixe
súbito salta — decifrando a vida...
Abre mais teus olhos,
como o teu coração!)
e que paisagem ímpar, a deste vale!
Sem o rigor das geadas, o verde
suaviza estas colinas e encostas,
por onde a brisa corre, palavras
sussurrando às flores, demoradamente;
por onde vaga a seriema,
com seu canto estridente mas gostoso;
onde, torrencial, é a chuva às vezes
Deus a atender-nos; e onde, em noites magas, o luar,
de detrás de araucárias, crava um raio de prata.
Como, ah! como pelos barrancos, entre musgos, viceja a samambaia;
e que cortinado, o dos cipós entrelaçados sobre as águas!
Faz da natureza, ó ser que me escutas
agora, faz da natureza tua casa;
rompe as portas que te privam
do que é verdadeiramente teu
e te dá por inteiro!...
17/2/2004
METALINGUAGEM
Quando a inspiração nos chega,
as metáforas buscamos:
por esta ou aquela palavra,
são mil outras que empregamos.
No poema, não se sente
o aroma, que este se bebe;
flor não se vê, se imagina
num jardim que se concebe.
Na canção, não se sacia
a sede com a água das fontes;
a sede de que se morre
na canção é de horizontes!
Ah! no poema, não se segue
mudo, aos prantos ou contente,
empós da alvorada, porque esta
vem-nos a nós simplesmente.
No poema, as mãos se abrem
para apanhar o universo;
e multiplicam-se os peixes
pelo milagre do verso!
No poema, as cores são muitas,
ainda que em preto e branco —
este, ao fundo, do papel;
se firme, aquele, ou se manco
(que importa!), da tinta, pouca,
para a inspiração, tamanha,
que às vezes, tal como a fé,
move mesmo uma montanha
25/12/2004
DESCONHECIDOS DE SI MESMOS
Dentro de bares, ao volante, pelas ruas,
homens se desconhecem, desentendem-se,
se olham com ódio e se rosnam,
e se insultam,
ou se olham com desprezo, fechados em si mesmos,
alheios muitas vezes ao que há de belo à sua volta,
a tudo aquilo que, de bom, reside nas coisas mais simples;
e a vida humana então se torna um fardo,
e esta existência então é um tédio, é angústia, é solidão e morte.
Não, não é o muro que nos tapa a vista à paisagem,
mas nossa vista que a si mesma se tapa;
não são os pássaros que já não cantam,
mas nós que já não os ouvimos;
não é que já não haja mais gestos de cortesia, é que apenas
esperamos por eles, esquecendo-nos de que sua prática é recíproca,
e de que um primeiro gesto talvez devesse partir de nós.
Dentro de bares, ao volante, pelas ruas,
concentrados e sós estão os homens.
Como resistem a um sorriso!
Conquanto seja grande o burburinho da cidade,
como que estão, na verdade, taciturnos,
atrás nem mesmo sabem de quê!
Sobre os telhados das casas, contudo,
e junto aos pombos no chão da praça, e no verde viçoso das folhas [das amendoeiras,
o dia, generoso, resplende.
21/12/2004
O DIA CUMPRIDO
Sombras como que escorridas
pelas pedras das calçadas;
as sombras como que líquidas,
ah! como que derramadas;
do café o cheiro morno
no vento, como, espalhadas,
as folhas mortas de outono,
as folhas como almas penadas;
o enorme espectro
das árvores
a assustar as alimárias
na penumbra que descora,
torna exangues flores várias;
como se do céu descessem,
os tentáculos da treva;
o rastro viscoso das lesmas
como o rastro de nós mesmos,
degredados filhos de Eva;
casas em redor da praça,
pelas íngremes ladeiras,
humildes umas, pomposas
outras, casebres, sobrados,
e, em seu interior,
mais que um arranjo de rosas:
um ranger triste de porta,
alguma coisa que cai,
uma lâmina que corta,
— sobre a cômoda, o retrato
antigo, de alguém, talvez,
que, tendo partido desta,
ao ninho torna outra vez;
ou antes parece que volta,
mas se dissolve antes que
uns lábios o busquem no ar,
e, fora, o ermo, que ri;
a dor da gente cansada;
a mágoa do entardecer;
o emudecer das cigarras;
de todo aquele que sonha,
de todo aquele que canta,
ainda que cante à toa,
ainda... que sonhe em vão;
o apito de um trem na estação,
onde se embarcava outrora;
o sino a carpir solitário
quem sabe o próprio fadário,
à hora em
que, findo o dia,
a noite
se forma e agiganta,
cobrindo
o mundo e o que — nele,
ao homem
seduz e encanta,
enquanto
crescem as raízes
fatais da
melancolia.
2005
DAS VONTADES
E ILUSÕES
Desejos
cegos, tristes ilusões
aos
poucos nos corroem, nos consomem.
Que
cousa rara, nesta vida, é um homem
livre
de todo das próprias paixões!
DO CUIDADO COM
AS PALAVRAS
De
bendizer jamais se esqueça,
a
cada instante ou situação;
falando,
o homem o coração
deixa
que todo transpareça.
FERA ACORDADA
Quem contra Deus e o mundo vocifera,
a jogar farpas para o alto e a esmo,
não vendo no seu ser, bizarra, a fera,
mais que ao próximo, estranho é a si mesmo.
A UM ILUDES, E A OUTRO
A
um iludes, e a outro, e outro. Cá
iludes, adiante, a esmo;
e
assim mentindo, astucioso, ah!
tu
sobretudo iludes a ti mesmo.
NUM “DIA DOS
PAIS”
Que
os homens manifestem alegria
ante
a beleza dos jardins em flor,
dos
frutos a pender dos galhos, das
aves
em festa, diante da magia
de
quanto exista e em si traga esplendor;
mas
corajosos sejam em horas más,
quando
os mesmos jardins forem deserto,
e
das árvores frutos não restarem,
talvez
nem mesmo folhas ou algum ninho,
e
as aves não cantarem mais por perto,
ventos
tristes, enfim, assobiarem
em
noites negras, sem luar de arminho.
Que
os homens manifestem seu encanto
ante
a algazarra pueril na estrada,
ante
uma mesa farta, o sono bom
de
um pequerrucho ao som de um acalanto,
e
ante uma nova vida anunciada;
a
face não contraiam ou mudem o tom
de
voz, porém, se um choro é que se escuta
em
lugar de algazarra, e, pouco, o pão
careça
de que seja dividido,
e
a noite não pro sono, para a luta
se
faça, longa e, às vezes, sem razão,
a
própria vida, um’hora, sem sentido...
Na
meninice, façam estripulia,
brinquem
de pique, saltem, se lambuzem,
e
que em riachos nadem, os havendo,
que
tudo é efêmero, e se até diria
que,
como à noite no céu astros luzem,
saudade
é um astro (quanto isto eu entendo!)
n’alma
do adulto, trêmulo, a luzir;
se
isso, entanto, possível não lhes for
(nem
sempre é!), lhes valha o pensamento:
“se
sujem, dispam, suem” ao subir
à
imaginária escarpa ao fim do corredor,
e,
como ao natural, gozem um momento...
Na
juventude, que eles para tudo
os
braços abram, e força não lhes falte
(o
mundo lhes estenda os seus também),
que
seu vigor lhes seja como escudo,
e
a frustração não sofram de um nocaute,
dizendo
a um infortúnio antes: — “Amém!”;
mas
também saibam enfrentar com tal
coragem,
da velhice, o que lhes vem;
o
verem-se, inclusive, verem-se, ai,
rosto
abatido, informe, espectral,
já
quase sós, e, sobretudo, sem
a
quem recorram e dizer possam: — “Pai.”
Páscoa, 2004
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