Alguma Poesia
— “Viagens?”
— “Paisagens novas?”
— “Mudança?”, me inquirem,
quando
apraz-me sempre a volta, não as idas;
se olho mais é para dentro, e me deleita
e basta
aquilo a que
chamam rotina.
A RESPOSTA
Adquirira, em Minas,
pequena propriedade rural
e, por esse tempo,
costumava passar finais de semana
e feriados ali,
junto à natureza,
respirando o ar puríssimo da roça
e gozando do seu sossego.
E justamente num desses passeios
foi que eu dei pela falta dos tico-ticos
e tizius — passarinhos que um dia
habitaram nossos quintais,
e que não tinham o menor valor comercial,
diferentemente dos
pobres dos canários e trinca-ferros,
que eram caçados e condenados,
por causa de seu canto,
à prisão perpétua em minúsculas gaiolas,
das quais grande parte
era construída com hastes de folha de embaúba
e varetas de bambu, tendo fundo
improvisado com lata
ou papelão. Lembro-me
de que as pobres das aves,
na vã tentativa
de se libertarem do cárcere, tanto,
mas tanto
se debatiam
que
causavam escoriações em torno ao bico.
Mas, ainda sobre os tizius
e tico-ticos, o que ocorrera
com eles, qual a razão
do seu sumiço?
Em visita a um de nossos vizinhos
teria a resposta.
Notara a presença de alçapões armados,
embora na casa
não houvesse qualquer pássaro preso.
Daí, questionada a finalidade das armadilhas,
a confissão, espontânea,
de que as roças de milho eram muito prejudicadas pelos passarinhos.
Nem foi preciso se prosseguisse a conversa,
eu já tinha a resposta,
não só sobre a finalidade dos alçapões armados
como à pergunta que a mim mesmo me fizera,
acerca do desaparecimento
dos tico-ticos e tizius, que,
juntamente com rolinhas, sanhaços, sabiás
um dia povoaram nossas matas.
“LEITO DE FOLHAS VERDES”
Abrindo ao acaso
as Poesias completas
de Gonçalves Dias, deparei com o título
de uma de suas composições
por ele denominadas “Americanas”,
a qual, entre tantas outras do autor,
admirara em minha juventude:
— “Leito de folhas verdes”, e iniciei
imediatamente
a releitura dela.
E, à medida que a ia relendo, ia
me embriagando,
me extasiando
com aquelas palavras tão
bem elaboradas, com
o ritmo daqueles decassílabos.
E eis que cheguei aos dois primeiros versos da terceira estrofe,
com os quais me deliciaria ainda mais:
— “Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já solta o bogari mais doce aroma!”
É que sempre os guardara de cabeça,
conquanto não me lembrasse
de quem eram, a que
poema pertenciam, e, de repente,
estavam ali,
à minha frente:
— “Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já solta o bogari mais doce aroma!”
Logo me vi lá em meados
dos anos 80. Adquirira
os Poemas de Gonçalves Dias,
edição de bolso
da Ediouro.
Como é bom recordar,
Como é bom
deparar num livro “novo”
com um texto já conhecido, lido
e admirado outrora.
Tal coisa já
me havia ocorrido, por exemplo,
ao rever o poema “Ladainha”,
de Cassiano Ricardo,
também em suas
Poesias completas. (Não
que eu não soubesse, nesse caso,
de quem eram tais versos, mas porque
me esquecera sinceramente deles,
que, se não me engano, lera
pela primeira vez
num velho número da revista Seleções ,
e relera
outras vezes
em livros didáticos, durante
minha vida estudantil.)
Mas voltemos aos portentosos versos
que me levaram a escrever este poema:
— “Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já solta o bogari mais doce aroma!”
Lembra-me o forte impacto que me causaram. Amei
de cara o nome “tamarindo”,
tendo ficado curioso
em conhecer a árvore que o leva,
bem como,
obviamente,
sua flor.
Na época, não havia internet,
nem celular.
Demoraria eu um tempo
até conhecer, numa
revista de botânica,
um tamarindeiro,
o que, mesmo assim
(ou talvez por isso),
me foi algo
gratificante.
Nessa mesma revista, aproveitei
para conhecer também o arbusto
de nome bogari, encantando-me
com o branco de sua flor,
tendo embora
me ficado a curiosidade
de conhecer ainda o seu perfume,
já que o poeta mesmo
foi quem o sugerira prazeroso:
— “... já solta o bogari mais doce aroma!”
_______________
O bom de novos livros
nem sempre é a novidade
que porventura tragam, mas
o que já conhecemos e, súbito,
ou propositadamente,
revemos durante o percurso silencioso
de uma leitura ou, simplesmente,
ao folheá-los, distraídos,
ou mesmo, ainda,
abrindo-os, ao acaso,
em determinada página,
como comigo se deu
abrindo eu
as Poesias completas,
de Gonçalves Dias, e aqui eis que narro,
poeticamente,
pelo fato de ter deparado
com o título de uma de suas composições
por ele denominadas “Americanas”,
a qual, entre tantas outras do autor,
admirara em minha juventude:
— “Leito de folhas verdes”,
e sobretudo com dois de seus admiráveis versos:
— “Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
já solta o bogari mais doce aroma!”,
que sempre guardara de cabeça,
conquanto não me lembrasse
de quem eram e a que poema
pertenciam.
PASSEIO & NEGÓCIOS
(DE CARONA NO CAMINHÃO DE LEITE — IDA E VOLTA)
O caminhão de leite para um instante em frente à tranqueira da pequena propriedade rural. Meu avô desce da cabine, muito cuidadosamente. Agradece ao motorista. Meu amigo e eu praticamente saltamos da carroceria. Destreza da juventude. Não. Não agradecemos.
Correria pelo caminho. Agitação. Meu avô nos pede que o esperemos.
Eis a pinguela. Apoio balançando muito, atravessamos para a outra margem do rio. Que gosto o de estar ali! Uma rês nos saúda, mugindo a certa distância. Que gosto, o de estar ali!
Seguimos pelo caminho, caminho estreito, feito pelo próprio gado, que segue por ele diariamente, em fila indiana, rumo ao curral e na volta dele. Como nós o fazemos agora, um atrás do outro.
Gosto de ver a casa, alta, paredes de pau a pique muito brancas. Gosto de subir-lhe a escada. Abrir-lhe a porta. Adentrá-la. Gosto de pegar a velha canequinha sem asa. Descer ao curral. Tomar, enfim, o leite cru recém-tirado da melhor vaca. Ali mesmo, junto àquele aglomerado de animais em festa sob a tímida réstia de luz matinal tentando romper a cerração: reses com as crias, galinhas, galinhas-d’angola, garnisés, um cão vadio e mesmo um gato ronronante de alegria por nos ver.
Alheios à conversa de meu avô com o camarada, falamos de outras coisas. Para nós mais interessantes.
E eis que já nos encontramos entre as laranjeiras do pomar. Os galhos pendem com o peso dos frutos. Muitos, espalhados pelo chão, apodrecendo. Recolho-os em um balde, corto-os em quatro partes com um velho facão sem ponta e distribuo-os ao gado. Gosto, o de estar ali, ali, fazendo algo que é nada, realmente. Relevante, contudo, para mim.
Meu avô, agora, nos grita:
— O caminhão! Vamos embora...
Deixo, vazio, o balde no chão, rente ao cocho em torno ao qual as reses se reúnem. Sem tempo para depositá-lo no lugar de onde o tirei. Sem tempo para mais nada.
— Adeus, universo rural. Adeus. (Agradecido à vida por esses poucos minutos, sem que profira a palavra gratidão ou mesmo nela esteja pensando, dou-lhe eu as costas.) Quem sabe em breve. Adeus!
DE UMA FOLHA
Que escaldante este sol de verão!
Ontem, surpreendeu-me
uma rajada de vento. Rota,
às intempéries tenho resistido.
E demoradamente amareleço. (Inveja
tenho às irmãs a que assisto caindo,
serena e ritmadamente,
afinal desprendidas
do galho que as trazia aprisionadas.)
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