Um grito plural [*]
Para alguns poetas, a musa inspiradora se encontra antes refletida no espelho do próprio eu; é o cantar das dores de amor, das imaginadas amarras, é o grito sufocado na garganta há muito, que, súbito, se desprende e se faz ouvir de forma estridente, mas logo se dispersa no vento. Para aqueles de inspiração mais vigorosa, contudo, a poesia é o resultado de uma comunhão com o todo universal, com o mundo que se lhes insinua: é a voz dos oprimidos encontrando eco, é a ferida alheia se fazendo sentir, doendo, incomodando. E é dentro desse contexto que se enquadra a poesia de Maria José Bulhões Maldonado, portuguesa, natural de Estremoz, Alentejo, radicada no Brasil há 30 anos, depois de um período de 20 anos em Moçambique. De quem se pode dizer: grande, sem exagero, presente — com êxito — em diversas antologias, estampada em páginas de conceituados jornais, é membro fundador das Academias: Internacional de Letras do Rio de Janeiro, na cadeira patronímica Fernando Pessoa, e Volta-redondense de Letras, e, ainda, associada do GLAN (Grêmio Literário de Autores Novos), e, em Barra Mansa, fundadora da Academia Barra-mansense de Letras e sócia do Grebal.
Fértil, criadora de um estilo próprio, o belo de sua arte é a intimidade com que trata desses assuntos de cunho social, banalizados embora pelos meios de comunicação de massa; é a facilidade com que fala de forma tão envolvente, e franca, de uma criança de rua, de um indigente, de um operário. O grito que rompe dos seus versos é, sobretudo, do povo, de que inúmeras vezes, em todos os seus livros, se fez porta-voz. Basta lembrar, e não é preciso ir além, o título de um dos seus poemas, entre tantos igualmente retumbantes: “Palavras que te vestem e me vestem e a toda a gente nua”. Mas não se pode negar a existência, também e com igual sucesso, de outras vertentes em sua obra: a mulher, mãe, esposa vêm não raro à superfície de sua lírica, constatando o talento excepcional da autora de Dias habitados e o seu domínio da palavra escrita, domínio este que resultou numa poesia ímpar, que a um tempo nos acirra e enternece.
Do livro Amor-múndi:
O esqueleto do teu passado não conta
O esqueleto do teu passado não conta
ficou sepultado na fadiga do tempo
Não percas tempo a visitar ruínas
mesmo as mais célebres
porque tudo o que passou e já não é
nada significa nem merece ser lembrado
Enterra o seu esqueleto no canto mais oculto
da memória
Ele é tão imprestável como leite
derramado
ou cristal que se partiu
Penetra heroicamente no labirinto da vida
sem medo de te perderes
Convive com teus irmãos
no tempo
Há frescura nas galerias subterrâneas do labirinto
e vida sobretudo há vida
Espera de cada um o que humanamente lhe couber
em sorte
Nunca exijas demasiado do teu semelhante
Lembra-te que é frágil como o vidro
Um ser humano como tu
sujeito aos embates da vida
não um santo ou um deus
E tu aceita com humildade o que ela te der
Nunca forces ninguém nem sentimento algum
Deixa que tudo aconteça simplesmente
Não soltes as idéias e as palavras
como frutos verdes
que ninguém pode digerir
Deixa-as desprenderem-se do limbo
do pensamento
como um pomo a cair de maduro
E aceita o teu semelhante tal qual ele for
Não há duas flores iguais
Como queres que todos pensem como tu
sintam como tu vejam o mundo
à tua maneira?
Os dedos da tua mão são iguais?
E não estão eles de acordo em realizarem juntos
todos os trabalhos que lhes destinas?
Então? Então?
Contenta-te em seres um dos dedos do destino
Eis a chave e a senha para que se abra a porta
da felicidade e da paz
Une-te aos teus irmãos
Para realizarem juntos a tarefa que Deus
vos indicar
Para que o mundo seja
uma grande mão ordeira e unida
E a vida A vida tão simples e bela
Como um grito de águia
em liberdade nas alturas.
Maneirismos são atavios dos ricos
Os pobres não têm maneiras
a comer
Não há etiqueta
nos seus gestos
Comem com a sofreguidão
que lhes confere a fome
Comem arreganhando os dentes
Como cães esfaimados
para que os outros
respeitem o seu osso
Comem como se fosse essa
a última refeição
de sua vida
Imolados à fome
Não preparam cada gesto
nem põem etiqueta
na vontade
Comem simplesmente
para saciarem a fome
Todo o corpo tomando parte
na mastigação
Animais famintos
Na pressa de deglutirem
os alimentos
parece estar o medo
de que lhos roubem
Maneirismos são ativos
dos ricos
Dos que comem diariamente
diariamente diariamente
num ritual de deuses.
Mesmo que a luta seja dura e vã
Mesmo que a bandeira não tremule
ao vento da esperança
Mesmo que os pés feridos se recusem
a caminhar por trilhas tortuosas
Mesmo que as mãos cansadas se retraiam
Há que soltar o grito na garganta
Há que secar os bagos de suor
Há que curar as fundas cicatrizes
Há que fazer das mãos pontes de amor
Há que somar esforços nessa luta
para rasgar os novos horizontes
Há que lavar a alma do desânimo
Há que tocar os sinos a rebate
Há que tirar as grades das janelas
Há que afastar as sombras de pavor
Há que saber ser homem forte e duro
Há que buscar a direção do norte
a fim de abrir as PORTAS DO FUTURO.
Palavras que te vestem e me vestem
e a toda a gente nua
Ao princípio não é mais
que um estremecer de folha
na corrente da inspiração
Comoção
imperceptível quase
Um roçar de seda
Halo quente
a envolver a mão
Como...
Como um pingo de chuva
a beijar a vidraça
numa carícia vaga
Como luz
que se acende e apaga
mas é luz embora intermitente
Como voz terna
sussurrada ao ouvido
e não se sabe ao certo
donde vem
Um dar-se
Um entregar-se
e não ser de ninguém
Ternura de mão
que nos busca e atrai
desejo de partir
sem saber aonde vai
Depois...
depois é um dilúvio de sons
a alargar o poema
São palavras palavras palavras
campos de palavras
São palavras nas mãos nos ouvidos
nos braços nos olhos na boca
palavras que são laços
amarras e algemas
Palavras certas como:
Pão amor fraternidade
E outras interditas
soletradas na escola
letra a letra
que se escrevem agora
no muro da cidade
a tinta preta:
POVO FOME MISÉRIA LIBERDADE
Palavras lixo
para serem varridas
pr’a sarjeta
Palavras nuas
na rotina diária
esfarrapadas
Palavras que lidas são espanto
e gritadas são espadas
desafio
Rio
que leva na corrente
nossa própria vontade
Palavras em tropel
que à solta
são cavalos sem dono
no descampado imenso
do papel
Trovoada estridente
a perturbar o sono
do POETA
Rastilho de sons
de sua alma parte
Toque o clarim
espingarda apontada
para entrar em combate
Palavra vestida de farrapos
me grita que proteste
Palavra que diz: POVO
e o choro da criança sem nome
na rua ao abandono
e que tem fome
Dos velhos sem reforma
e com família
lançados no monturo
Da mãe
filho na guerra
e em guerra de vigília
Dos reféns abatidos
nos matadouros infames
do Poder
Dos raptos e assaltos
perpetrados
Das chacinas em massa
para mostrar ao povo
como é que se amansam rebanhos
Dos bandos de chacais esfomeados
Do operário de ganga esfarrapada
que não ganha para comer
Dos exilados para
aumentar a féria
Dos caixotes de lixo
rebuscados
Da colcha descolorida e rota
do meu país
que não cobre a miséria
Palavras de granito
lançadas aos ouvidos de quem passa
como cimento que se lança ao muro
para torná-lo firme e com futuro
E não esconder apenas a desgraça
Palavras que te vestem e me vestem
e a toda a gente nua
Palavra que é enxada que é charrua
com que lavro a terra prometida
Palavra de verdade
palavra que tem alma
que tem vida
Palavra que tem pernas
chega à meta como herói corredor
ergue na mão o facho do poema
e grita à multidão:
LIBERDADE
FRATERNIDADE
AMOR.
A mágoa comum
Já tive força de semente gerando vida.
Um dia incitei a olhar para o lado e amar.
Hoje, sou esta névoa do ser sem novos horizontes;
esta dor nos olhos da alma;
esta luz sem reflexo;
esta angústia maior que o mundo.
Não me coloquem em pedestais,
sou barro frágil e falível.
Pensam-me luz o tempo todo
e eu sou luz e trevas, porque humana.
Julgam-me inteira e ignoram
em quantos fragmentos estou quebrada.
Minha alma está exausta de sentir.
Minha voz silenciosa.
Qual o ritmo do meu coração cansado?
Deixem-me quieta, como pedra mergulhada
no rio do destino.
Pedra que ninguém move porque está submersa
nas águas turvas da indiferença.
Ah! Deixem-me assim parada,
assim nula para a vida,
sem o esforço da luta,
sem o desconforto da mudança.
Com este cansaço de séculos sobre os ombros.
O caos que assola o planeta
fere-me a alma em carne viva,
na impossibilidade de secar lágrimas
com lenços de piedade.
Espadas de fogo queimaram a esperança
e refugio-me no infinito da dor,
Esse vazio, esta náusea
será já o ensaio para a morte?
Na MÁGOA COMUM
está a razão deste desassossego.
está a razão deste desassossego.
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