sábado, 1 de novembro de 2025

Menulfo Nery Bezerra

 MENULFO NERY BEZERRA E SUA POESIA CREPUSCULAR*

 

Menulfo Nery Bezerra, natural de Salvador, barra-mansense por adoção, nos brinda este ano com a publicação de seu mais novo trabalho: Joias do meu relicário, composto em grande parte de sonetos (cujo desafio assumiu por conta de sua amizade com a mestra e prosadora Eliette Ferreira), mas em que se destacam também outras composições que em nada ficam devendo ao modelo de forma fixa de origem italiana do século XIII. Trata-se mesmo de um relicário tão primorosa coletânea de versos, a que o poeta deu tanto de si em cada página, ele, que, já aposentado, viria a conviver com o seleto grupo de escritores que então fazia história no cenário cultural da nossa região: Francisco Nogueira, poeta por excelência, idealista incansável, fundador de alguns jornais, dentre eles O Líder, por meio do qual fazia brilhante trabalho de crítico literário, sempre enaltecendo seus pares, dando-lhes, sem distinção, incentivo para trilharem seu caminho luminoso e apoio incondicional aos seus propósitos artísticos; José Lourenço, poeta, sonetista e admirável trovador, também fundador de periódicos, cujo fim era sobretudo a literatura; Matilde Diniz Lacerda, professora de grande talento, que, excedendo o universo das letras, enveredava-se também pela música, pintura e teatro, mas que no âmbito da escrita mais evidentemente se destacou, com sua poesia intimista e crônicas em que muito louvou a cidade de Barra Mansa; J. M. do Lago Leal, poeta e contista exemplar; Eliette Ferreira, poetisa e prosadora das mais felizes, que, em sua coluna “Gente”, no semanário O Líder, presenteava o público leitor com crônicas de beleza e lirismo ímpares, além de outros tantos escritores que só não citarei para não me estender demais. São palavras do próprio poeta que “conheceria a técnica do soneto graças à professora Eliette”. E não é que, como discípulo, não se saiu muito bem! Seus sonetos atingem, externa e internamente, um resultado único — entenda-se aqui aprimoramento, polidez realmente, em que se distingue a preferência pelo emprego do decassílabo, e este, por sua vez, aleatória, mas consistentemente, ora heroico, ora sáfico, a que se junta um quê de pessoalíssimo, algo bastante característico do vate, raramente fugindo aos temas que lhe parecem tão caros, como o amor, a morte, a solidão e a dor. Em algumas de suas composições do gênero, temos um poeta até certo ponto aficionado do antropomorfismo, manifesto nos diálogos por ele travados com objetos de casa: o telefone, a cadeira de balanço, etc., da rua (uma mesa de bar, por exemplo), e, ainda, com aquele de sua posse mesmo, isto é, seu violão. No seu todo, afinal, à maneira dos versos dos velhos seresteiros, os de Menulfo são também chorosos, sentimentais e, por ele declamados, como que mais nos enlevam. De métrica regular, especificamente decassílabos, quase monocórdios, tais versos não se restringem apenas aos sonetos. Há, nesta coletânea, composições outras decassilábicas, e que são dignas de louvor. O que dizer, por exemplo, dos poemas “Entardecer da vida” e “Madrugada só”? Mas não nos é surpresa vermos que o bardo, com igual maestria, trabalha seus alexandrinos, como nas peças “Poema para D. Zazá” e “Meus versos tristes”. Empregando tal medida esporadicamente, parece sugerir-nos certo desejo de expansão métrica, quero dizer, de mais musicalidade, ainda que já o tenha feito espontaneamente, como já dissemos, ao utilizar alternadamente decassílabos sáficos e heroicos em muitos de seus sonetos, e mesmo nas demais poesias, que, embora em menor número, são igualmente inspiradoras. Em suma, sendo Menulfo Nery Bezerra particularmente um poeta de versos medidos, e de medida restrita a decassílabos e dodecassílabos, não se aventurando por outros metros e nem pelo verso livre, ainda assim é grande poeta, é poeta acabado. Quanto à sua pessoa, entretanto, nos fica a impressão de que é uma pessoa algo modesta. Tendo publicado, em 1999, o volume Retalhos de percal, pelo Grêmio Barra-mansense de Letras, brilhantissimamente presidido por Eliette Ferreira, só em 2012, com José Fleming e conosco, no volume intitulado Haicais, épica & sonetos, daria a lume o seu Livro de sonetos.

Agora, com Joias do meu relicário, ele afinal se exime de se ter feito tal injustiça, ao presentear-nos, e sobretudo a si mesmo, com uma obra cujo destino é eternizar-se.     

 23/11/2023  

    * Prefácio ao livro Joias do meu relicário.

 

SER POETA

 

Ser poeta é ter a alma sucumbida

Em sofrimentos, ilusões, quimeras;

É ter, na morte, o pedestal que a vida

Vem lhe negando há muitas primaveras.

 

Ser poeta é ter na destra um açoite,

Ou rubra rosa a florejar candores;

É ser mais triste, quando vêm à noite

Vê-lo fantasmas de priscos amores.

 

Ser poeta é viver imerso em sonho,

É ter, no peito, um coração tristonho,

É querer vidas, que não pode tê-las...

 

É versejar na madrugada em fora

E ouvir, cansado, antes do albor da aurora,

Como acalanto um madrigal de estrelas.

 

BRISA VESPERTINA

 

Ó brisa vespertina suave e mansa,

Tu vens trazendo na rajada amena

Sopros de vida, sopros de esperança,

Que a mão de Deus para o futuro acena.

 

Brisa da tarde, estranha carpideira,

Deambulando no final do dia,

Tu vais levando aos montes, ribanceiras

Prantos de mágoas, prantos de agonia.

 

Tu só não levas, brisa vespertina,

A Fé em Deus, luzerna que ilumina

A senda, que me resta percorrer...

 

E, quando a morte vier fechar-me os olhos,

Vencendo escarpas e a transpor abrolhos,

Dá-me sentir-te antes de morrer.

 

A ÁRVORE DA PRAÇA

 

As folhas caem da árvore frondosa

E se esparramam na deserta rua;

A juriti, no seu cantar, chorosa

Busca outro ninho sob o clarão da lua.

 

E caem folhas, já final de outono,

Quase à entrada da estação do frio...

Folhas, que murcham num triste abandono, 

Em decorrência desse longo estio.

 

As folhas caem e, na calçada em frente,

Segue um tapete estranho, diferente,

De folhas secas, que perderam a cor...

 

E a árvore nua, sob o vento assiste

Às folhas que se vão e do seu cerne triste

Brota um lamento de saudade e dor...

 

MANHÃS JUNINAS

 

Manhã brumosa, friorenta e calma,

Manhãs de junho, elas são assim:

— Esbranquiçadas, e nos trazem à alma

Brumas doridas do que teve fim.

 

Manhã de junho, a passar bisonha, 

Nesse cortejo alabastrino e frio,

Tão solitário este poeta sonha,

Versificando num letal fastio.

 

Manhã de junho, nevoenta e baça,

Cuja neblina sob o sol se esgarça

E que faz nimbo lá no plúmbeo céu...

 

Deixa esvair-se, ó manhã silente,

Em tua bruma, a cruel dor

Deste que vive amargurado e ao léu...


Tributo a Carolina Ramos

  CAROLINA RAMOS — FIGURA NOTÁVEL[1]

Poetisa, prosadora, artista plástica, a santista Carolina Ramos é, sem dúvida alguma, uma figura notável. Sendo autora de mais de vinte livros, entre ficção (InterlúdioFeliz Natal, etc.), biografia (Rui Ribeiro Couto — vida e obraPríncipe da trovaSaga de uma vida, etc.) e poesia (SempreCantigas feitas de sonhosTrovas que cantam por mim, etc.), deixa, sempre, em tudo quanto escreve, a sua digital, caracterizada por uma sensibilidade à flor da pele, de modo que, como há, evidentemente, muito de biográfico em sua poesia, há, também, muito lirismo em sua prosa, quer nos contos, quer nas biografias. Minha admiração pelo seu trabalho, entretanto, surgiria a partir de um gênero poético surpreendentemente simples: a trova. E aqui cabem parênteses. Parte de minha infância e juventude, passei-a em minha terra natal, a pacata cidade mineira de Santa Rita de Jacutinga. Eram os anos 1970, em que se gastava o tempo de criança e adolescente era com brincadeiras de rua, banhos de rio, televisão e — muito pouco, é verdade — leitura de livros paradidáticos, sobretudo os da série Vaga-lume, da Editora Ática, fornecidos pela escola, como forma de atividade para casa e de aprimoramento cognitivo (Menino de asas, de Homero Homem; A ilha perdida, de Maria José Dupré, O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida, são alguns exemplos). Lembra-me que em casa havia poucos livros, entre os quais, um, de fábulas de La Fontaine, outro, de nome sugestivo: As mais belas de histórias, que trazia também belos textos em verso. A Bíblia, furtava-a ocasionalmente de meu avô, deliciando-me, mais de uma vez, com a força, a paixão e o destino de Sansão. O que talvez viria a despertar em mim o gosto pela leitura, mais precisamente pela poesia, contudo, seriam o jornal Lar Católico e a revista Mensageiro do Coração de Jesus, esta assinada por minha mãe e aquele por meu avô. É que ambos, além de aforismos e trovas conceituosas (em que sobressaía o nome de um padre — Héber Salvador de Lima), traziam também magníficos poemas, ensaios e artigos. Quando de minha mudança para Volta Redonda, já no início da década de 1980, ficaria certo tempo indiferente à leitura de livros, fossem do gênero que fossem, até que, por algum motivo de que não me lembro, aos dezessete anos, adquiri, em uma livraria perto da escola em que estudava, a obra Antologia poética, de Vinicius de Moraes, apaixonando-me pela poesia. A partir de então leria, de grandes poetas, como Gonçalves Dias, Guilherme de Almeida e Castro Alves, seletas ou o conjunto da obra, agora da coleção Prestígio, da Ediouro. Rabiscava por esse tempo meus primeiros versos e, conquanto fosse um poeta principiante, para não dizer mau poeta, tinha lá meus conceitos sobre algumas categorias de poemas, sobretudo os de forma fixa, como o soneto e a trova. Se aquele me instigava, por considerá-lo surpreendentemente desafiador, a trova, ao contrário, era por mim desprezada. Achava-a mesmo arte menor. Estrofe solta, em heptassílabos fáceis, com rimas quase sempre simples e pobres. De modo que, por quase três décadas, renegaria tal modelo de poesia. Até que, casualmente, em casa de uma amiga, distraído a ler as lombadas dos livros de sua estante, deparei com o volume Gotas de luz, do médium Francisco Cândido Xavier, todo ele de trovas, atribuídas ao espírito de Casimiro Cunha. Peguei-o, folheei-o e acabei por levá-lo para casa. Contendo máximas e provérbios, as quadras ali reunidas me pareceram dignas de louvor. O pequenino poema afinal me tocara. Lembrando-me de quando, em minha infância e pré-adolescência, me debruçava sobre Héber Salvador de Lima, o padre trovador, adquiriria, através da internet, opúsculos seus de cantigas, tais como Uma rosa me disseA valsa das floresReflexos. E, com grande desejo, então, de aprofundar-me no gênero, as Trovas populares brasileiras (Livraria Francisco Alves — 1919), organizadas por Afrânio Peixoto, Parêmias (A Editora — 1910), de Soares Bulcão, e, mesmo, uma ou outra coletânea de poesias psicografadas por Chico Xavier, vindo, por fim, a conhecer a história da trova no Brasil e seus grandes divulgadores: Adelmar Tavares, Luiz Otávio e Aparício Fernandes. Reconheço o admirável trabalho sobretudo deste último, que conseguiu a façanha de publicar obras relevantes, como Nossas trovas (Companhia Brasileira de Artes Gráficas — 1973), com 444 páginas, 7200 quadrinhas, contemplando 72 trovadores, Trovadores do Brasil (Minerva — volumes 1, 2 e 3, 1966, 1967 e 1970 respectivamente), e, ainda, de declamar trovas, suas e alheias, na rádio e, se não me engano, na TV. Nos anos 1960 e 70, a poesia tinha espaço nesses dois veículos de comunicação — rádio e TV, atingindo os poetas maior alcance de público. Com o advento da internet, têm surgido, sem dúvida alguma, muitos e bons veículos de divulgação da poesia e seus autores — como os blogs e sites, mas a arte da palavra escrita, sobretudo a poesia, foi por quase quatro décadas, fatidicamente, boicotada pela grande mídia, o que lhe causou danos, como a perda gradativa de seu prestígio junto o leitor comum, algo difícil de se recuperar num estalar de dedos.

Mas voltemos à poetisa — mais especificamente à trovadora — Carolina Ramos. Em minha incursão pelo universo da trova, acabei por conhecer seu trabalho no gênero, tornando-me um seu admirador. Recordo que, não faz muito, folheando algumas coletâneas e antologias publicadas entre os anos de 1970 e início da década de 80, época áurea da trova no Brasil, curtia ver fotos suas, entre outros grandes trovadores, ou descontraidamente, à frente de um hotel, ou recebendo títulos, homenagens e prêmios, ou, ainda, sendo agraciada com uma medalha de mérito cultural, como a de “Magnífica Trovadora”, que conquistou em 1973, em Nova Friburgo, por conta das seguintes trovas:

 

“Angústia, imensa, dorida,
pior que a dor de morrer,     

é não ter apego à vida
e ser forçado a viver...”

 

(Nova Friburgo, 1971 - 10º lugar)

“Sempre acolho de mãos postas
e humilde tento aceitar          
o silêncio das respostas
que a vida não sabe dar.”

 

(Nova Friburgo, 1972 - 8º lugar)

 

“Mãos tristes, temendo ausências,   

se despedem com revolta...
— Nosso adeus tem reticências
que acenam gritando: — Volta!”

 

(Nova Friburgo, 1973 -1º lugar)

______________________________

 Disse eu anteriormente que minha admiração pelo trabalho de Carolina Ramos surgiria a partir de suas trovas, não foi? Pois bem, adquirindo um ou outro livro seu exclusivamente desse gênero poético (gênero de que, “brincando”, se utilizou um Manuel Bandeira, e, tão grandemente, um Fernando Pessoa), adquirindo um ou outro livro seu exclusivamente desse gênero poético, inevitavelmente acabei por me interessar por toda a sua poesia, bem como por sua prosa, sobretudo os seus contos. E, com a facilidade de se comprar a distância hoje em dia, felizmente pude conhecer parte significativa de seu brilhante trabalho como escritora e, mais que conhecer, partilhá-la com alguns amigos.

 


[1] Matéria constante da XIII coletânea século XXI.
 


ALGUMAS TROVAS DE CAROLINA RAMOS SEGUIDAS DE UM SONETO

 

Como é fútil e tamanha
a soberba dos ateus…
Seixos ao pé da montanha,
negando a montanha – Deus!

 

***

 

Ante os dilemas da vida,
embora ilusões destrua,
à mentira bem vestida,
prefiro a verdade nua!

 

***

 

Sussurrando com ternura,
prova a fonte, sem revolta,
como é possível ser pura,
mesmo tendo lama em volta!

 

***

 

Por te amar, tenho sofrido,
mas não me arrependo: Vem!
— Quem ama as rosas, querido,
ama os espinhos também!

 

***

 
Promessas de amor são folhas...
são folhas que o vento arrasta...
Talvez uma só recolhas,
Uma só... e é o quanto basta!
 
ORQUÍDEA
 
Presa ao tronco, sob alta ramaria,
fidalga, a orquídea viça. Ao seu encanto,
pasmam os colibris e se extasia
a noite que a abrilhanta com seu pranto!
 
Espiritual, ao solo repudia
ansiando pelo espaço, no mais santo
desejo de ser pura. A fantasia
lhe esmera a forma e lhe colore o manto.
 
Flor sonhadora, em busca do infinito,
reclusa no seu páramo selvagem,
guarda o fascínio e a sedução de um mito!
 
E em sua altiva solidão de asceta,
retrata a orquídea a mais perfeita imagem
da alma utópica e lírica do poeta!

Ruy Espinheira Filho

 

RUY ESPINHEIRA FILHO, ESCRITOR E POETA

 Prosador fértil e multifacetado, dominando com igual destreza o conto, o romance, a crônica e o ensaio, Ruy Espinheira Filho é sobretudo poeta, somando, fora as antologias pessoais e participações em coletâneas e revistas, dezoito livros do gênero. No cenário atual da poesia brasileira, os versos desse baiano de Salvador têm cadeira cativa, graças à facilidade com que consegue comunicar emoções e sentimentos comuns a todos nós. Tido como o poeta da memória (pois pelo passado que, o mais das vezes, incursiona), é das perdas que tira a matéria-prima com que, de modo lapidar, trabalha. Sua impotência ante o correr irrefreável das horas (“Vamos beber qualquer coisa/ amarga, rascante, rude,/ brindando sobre o já frio/ cadáver da juventude.” — in Memória da chuva), a nostalgia crescente que o acompanha, à medida que tudo se lhe vai dissipando ao redor (“Tenho escrito muito nos últimos dias/ porque me têm procurado certos rostos e vozes.” — in Milênios e outros poemas), o assombro diante de si mesmo no espelho, se transformando, agrisalhando, envelhecendo (“Consulto o espelho,/ que apenas me fita/ criticamente.” — in Sob o céu de Samarcanda), mais que propriamente temas, são, em verdade, perspectivas sob as quais esse artífice da palavra elabora cada poema a cada novo livro, incansavelmente. Sobre o volume Heléboro, com que, em 1974, estreia Ruy Espinheira Filho, diz Carlos Drummond de Andrade: “Poesia concentrada e de sutil expressão.” Prognósticas, tais palavras, mais do que nunca, sintetizam o conjunto da obra poética desse grande lírico, reconhecido pela crítica e laureado, amiúde, com os mais importantes prêmios literários do país.

(Orelha do livro Vozes de Aço — XXII Antologia Poética de Diversos Autores)


POEMAS DE RUY ESPINHEIRA FILHO


OS OBJETOS

Os objetos
permanecem claros.
 
Habita a moldura
uma mulher de faces
cor-de-rosa.
 
Sobre a mesa de mármore
um cavaleiro de porcelana
saúda as visitas.
 
A caneta ainda escreve
com a mesma tinta
de um azul levemente melancólico.
 
Na gaveta, dormindo
sob cartas e poemas,
o revólver aguarda.
 
DIA DE FINADOS
 
Tantos são os abandonados
e caminham ásperos no silêncio.
Há os que rezam, os que choram,
os que se mantêm
                                      impenetráveis.
 
E todos depois retornam às casas, aos pequenos
mitos auxiliares de cada dia
sob o indiferente azul do céu.
 
As flores depositadas sobre as sepulturas
absolvem os mortos.
 
CAMPO DE EROS
 
Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.
 
E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.
 
E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),
 
o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes
 
a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.
 
Amor. Do extinto pássaro, o voo
prossegue, inexorável. Mas perdoo,
 
eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,
 
amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,
 
e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor
 
por toda parte trucidado e em flor.
 
ULISSES
 para Valdomiro Santana 
 
O vento canta
                           o vento
canta
que ninguém volta
canta o
                       vento
em tua janela
em tua alma aberta sobre a
                                                    distância.
 
Este sal em tua boca
não é do mar
                                  sim
do lago em que submergem
teus olhos
                          porque sabes
que tudo é apenas
uma vez
como
              canta o vento
em tua janela
                            como
dói
em teu coração:
                                   que ninguém volta.
                                                                       Ítaca
é só de onde
se vem.  
 
ENQUANTO
 
Um dia recordarei
que aqui estive, assim, à brisa
de janeiro, folhas verdes
acenando sobre o muro,
céu azul, silêncio,
                               como
lembro a tarde em que cruzaste
o leito seco do rio,
as tranças ruivas e longas,
os seios ainda dormindo
na blusa
                      e além: na infância.
 
Um dia recordarei
esta hora, estas palavras
que se escrevem leves como
a brisa, e com ela passam
para o jardim em que lembra
a minha alma
                             enquanto
tarda o tempo de esquecer.
 
CANÇÃO DE DEPOIS DE TANTO
 a Roniwalter Jatobá
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
 
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
 
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.


Vamos beber qualquer coisa.

O que for. Vamos beber.

Mesmo porque não há mais

o que se possa fazer.

 

EXUMAÇÃO

 a Paulo Espinheira

 

Não sei como tantas vastidões

couberam um dia nessa pequena

casca de osso

que o coveiro retira com as mãos nuas

e deposita na caixa de metal.

 

Penso nisto, enquanto ele,

exímio,

se curva mais uma vez sobre o caixão,

recolhe

tíbias e fêmures,

cúbitos e úmeros,

afastando as roupas corroídas,

vertendo o conteúdo das meias,

arrumando depois tudo

para a breve viagem

de túmulo a túmulo.

 

Leves ruídos na caixa,

                                    enquanto caminhamos

pelos corredores dos emparedados.

                                                         Um som de apenas

asperezas.

                       E é só.

                                             No entanto,

                                                  uma vez,

não sei como, cintilaram

                                              galáxias

nessa pequena e frágil casca que conduzimos

entre outros inúteis objetos pessoais

deixados por aquele que partiu

para nenhum endereço.

 

CAIXA

 

Nem era mais lembrada esta caixa de metal

com um veleiro enferrujado na tampa.

No entanto, esquecida, não esqueceu,

como mostra, ao ser aberta,

nesta agenda com números de telefones

que soam na juventude

e nesta fotografia

de

pai, mãe, avó, sete meninos

sob um sol anoitecido há quarenta anos.

 

Não esqueceu. E se deixa

fechar novamente por quem sabe

que ela nunca mais se fechará.

 

HERANÇA

 

Rua Ramalho Ortigão, nº 1.

Ao longo dos domingos nos sentávamos

todos à mesa oval, bebendo para

que as Musas perdessem a timidez

e tomassem lugar ao nosso lado.

E elas baixavam, sempre, em meio à tarde

e ali ficavam até mesmo quando

só um restava ouvindo o que cantavam

as sereias no cálice de Porto.

Isto deixo aos meus filhos: esta herança

do que ocorria, em certa era, na

Rua Ramalho Ortigão, nº 1,

onde não há domingos há onze anos.

 

OUTRO DIA

 

Que tudo se vá

e não volte mais.

 

Nem como distante

névoa de lembrança.

 

Que tudo se finde

e só reste cinza.

 

Da autêntica — sem

trapaça de fênix.

 

PENSAMENTOS

 

Se eu morresse agora,

teria vivido menos 901 anos

do que Matusalém.

 

Matusalém foi o grande recordista,

batendo os 930 anos de Adão

e, por ordem cronológica,

os 912 de Set,

os 905 de Enos,

os 910 de Cainan,

os 895 de Malaleel,

os 962 de Jared.

 

Mas não bateu Matusalém seu pai,

bisavô de Noé,

Enoque,

que talvez ainda esteja vivo de alguma forma,

porque andava com Deus e um dia sumiu,

provavelmente para fazer andanças maiores,

mais altas e sutis,

no imponderável.

 

969 anos viveu Matusalém.

Vida longa, mas creio que um tanto vazia,

pois dele só nos contam,

tirante a ascendência e a descendência,

a portentosa longevidade.

 

E então, de repente, penso

que teria vivido 901 anos a menos do que ele viveu,

se morresse agora.

Sim, veio-me este pensamento estranho

nesta manhã sem nuvens.

 

O que, na verdade, não é estranho,

pois desde Eva se sabe

que não há necessidade nenhuma de nuvens

para que chovam sobre nós pensamentos

estranhos.

 

SONETO DA LUMINOSA RONDA

OU

UMA VISITA A MARIO QUINTANA                                                                                         

 a Sérgio de Castro Pinto

 

E eis de volta a Memória, a de onde emana

a imagem da ruazinha sossegada,

já tão longe... Mas bela, enluarada,

como se fosse um verso de Quintana.

 

Como se fosse a alma de Quintana,

que meu pai revelou-me: emocionada

leitura; éramos jovens; constelada

a vida na poesia de Quintana.

 

E um dia apresentaram-me ao Poeta,

mas já o bem conhecia pela ronda

de aventuras vividas em discreta

 

cumplicidade. A luminosa ronda

em que ainda sigo meu pai e o Poeta

pelo vago País de Trebizonda...

 

SIMPLICIDADE


Prazer de ficar lendo,

ao longo da tarde,

um poeta simples.


Que não é menos complexo

do que um poeta complexo:

é que é complexo

de uma maneira simples.


Tão simples que os poetas complexos

não conseguem atingir sua simples

complexidade.


Procurando alcançá-la,

tornam-se cada vez mais apenas

complexos.

E então,

como não conseguem atingir a complexidade

de um poeta simples,

acusam o poeta simples

de simples simplicidade.

 

E assim ficam, com ares arrogantes,

destilando desprezo

pelos poetas simples.



E chegam a dizer até que não têm cabeça...



O que até pode ser verdade,

mas da mágica verdade da

Mula-Sem-Cabeça,

que,

não tendo cabeça,

solta fogo pelas ventas...