quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Elogio a um trabalho e a uma vida


Ser sedento de ser [*]


Poesia é sonho em que se insiste só, conquanto o destino de um texto seja o público. Poeta é aquele a quem compete um templo edificar sob cujo teto se possam acolher as almas todas, principalmente as que mais precisam. Enganam-se aqueles que acreditam ser a poesia um simples entretenimento ou terapia, cujo fim é ocupar-nos de maneira que se dissipem os fantasmas que nos rondam. Poesia é mais, é compromisso que conosco assumimos. Necessidade da alma. Fascínio que nos toma e que se estende a outrem. Luiza Pettersen o sentiu um dia, mostrando-se toda inteira a partir de então, em versos despojados do que é supérfluo, vestidos tão somente de sentimentos. Espontâneos como a própria autora. No caso peculiar de Luiza, poesia é sopro de brisa nos cabelos. Despretensiosas no que diz respeito à perfeição, suas poesias têm um quê de frescura e simplicidade, de calor humano e espiritualidade que nos envolve desde a primeira leitura. Mas quem é Luiza Pettersen?:

(...) poetisa,
Tímida na caminhada,
Pela emoção levada,
Coloco nos versos livres
Os reflexos de minh’alma.

Encontrei muitos espinhos
Nos caminhos por que andei;
Mas das flores que colhi
Com o perfume eu fiquei.

Como a si mesma chamou: poetisa tímida, o que podemos interpretar como cautelosa em seu caminhar, tocada quase sempre pela emoção, tendo sentido — talvez por isso mesmo — mais penetrantes os espinhos do caminho. Em contrapartida, impregnada do perfume daquilo que amou e soube abraçar. Acima de tudo, vitoriosa, no sentido de que, como ninguém, compreendeu que, na vida, temos de usar de bom senso e equilíbrio, o que afirmará nos célebres versos do poema “Caminhar”: “Compensar/ Uma janela fechada/ É abrir outra.”
Raros são os poetas que se esquivam de cantar a paixão. A ela Luiza não deixa de prestar tributos, falando diretamente ao amado:

Esteja perto ou distante,
seu beijo 
levo em minha boca,
sua imagem
conservo em meus olhos,
retendo seu olhar
nas horas frias de ausência.

ou de forma mais resguardada, embora não menos fervorosa:

Abrir as comportas
de nossos rios de emoções
na luta pelo amor
entre o bem e o mal.

Mas é o tempo, dos temas a que recorre, talvez o mais abordado, ou antes — o mais seriamente esmiuçado por essa diva. A preocupação com o correr irrefreável das horas, fantasma a assombrar a felicidade presente, é ressaltada em muitos de seus escritos. Atestam-no estas palavras: “É preciso amarrar o tempo/ Quando se embarca/ No espaço da felicidade...” No envolvente, belo poema intitulado “Viagem no tempo”, vemos vibrar sua emoção ao relembrar, à Casimiro de Abreu, seu passado distante, no interior. É a infância que lhe vem à tona, ao rever os escombros de sua casa, em frente a uma estação ferroviária; ao rever os lugares em que brincou menina e em que um dia foi feliz:

Uma viagem no tempo
de meu passado distante...
Eu ali, emocionada
sob a luz rosada
do cair da tarde.
Naquele chão terroso,
paralisada contemplava 
o espaço irreconhecível, 
cercada de saudade
da casa em que eu morava
em frente ao pátio
da estação ferroviária...

Emoção ao lado da qual, porém, não deixará de sentir avultado aquilo que mais a perturba, atormenta: a sensação de impotência diante da fugacidade de tudo.
Suas reflexões em torno da essência humana, da existência de uma força criadora, de nosso tempo de vida na terra, e da necessidade de realização que pulsa dentro de cada um de nós, creio advirem da leitura que faz de grandes prosadores, filósofos e, particularmente, de uma autora brasileira com a qual muito se identifica: Clarice Lispector. No ensejo, bom que se diga que o seu hábito de leitura de tais gêneros, que não é recente, sugere-nos tratar-se de uma pessoa que, de modo igual, escreve com paixão arraigada, jamais passageira. No prefácio ao livro de estreia da poetisa, Peregrinação da memória, Maria José Bulhões Maldonado vaticina: trata-se de alguém que não parará. Atesta-o o presente volume, cujo número de páginas supera o do primeiro.
Transitando muito espontaneamente de um tema a outro, a poetisa, parece-nos, se revigora ao referir-se a coisas menos complexas. Motivo para um poema serão, então, uma flor nascida ao acaso em seu jardim ou um pequenino besouro que lhe adentre de súbito o quarto (e é essa uma qualidade que deve ser louvada, não somente nela, mas em quantos poetas se revelem surpresos e agradecidos com o aparentemente pouco do cotidiano, e que acabam por dar-nos, inda que sem o propósito, profunda lição de sabedoria):

Olhando a vida de dentro
para a beleza de fora,
da primavera que chega
com a vida renascendo
no despertar da aurora.

Na contagem do tempo
da viagem da existência,
abrir as janelas
ao colorido da paisagem.

Uma casa em meio à natureza
 mudada em casa da alma.
Casa do pouso
frio e temperado,
com aroma e sabor
que nutrem a carência
do alimento do amor.
              
Há sons, sinfonia
no canto dos passarinhos.
Região bela e pura
é Penedo,
com seu povo e turistas
vitalizando energia,
recebendo da natureza,
a fonte da vida.

Infortúnios da existência levam-na às vezes a desabafar-se, o que não a impede de prosseguir no seu ideal de construir em torno de si um mundo em que todos se sintam tocados pela mão divina, felizes pelo que têm estando em comunhão com o Universo — amor:

Não mergulhe apenas 
em um sonho confortável;
mas ainda é tempo de sonhar.
De andar pelas veredas
à procura do melhor do mundo.

Ir ao encontro de sua própria verdade,
do seu paraíso
ainda não descoberto.

De aceitar a vida como um exercício.
De despertar para a realidade
com liberdade plena
de tentar mudar.

Em busca de uma flor,
um buquê encontrar
na roda da vida
de  um mundo a girar.

Desfazendo o buquê
no caminho em que passar,
encontrando a felicidade
no privilégio de doar.

As pétalas perfumadas
que o vento há de espalhar
no canteirinho de amor
o perfume vão deixar.


Vinda da cidade mineira de Carangola para a Capital Brasileira do Aço, seria ela apenas mais uma criatura de Deus em busca de melhores condições de vida, de alento para as aspirações — tão comuns a todos nós. Todavia estava marcada. Predestinada: “Quero vestir-me/ De grandes asas/ Para voar/ Acima da mesquinhez,/ Ser protegida/ Pelos raios de luz da verdade...”
Não a tomou de assalto a Musa. Não a surpreendeu em meio às intempéries. A poesia dessa alma generosa se manifestaria só mais tarde, sulcada a terra, preparado o campo.


 [*] Introdução ao livro homônimo da autora.

Do livro Ser sedento de ser:

Estação ferroviária

Uma viagem no tempo
de meu passado distante...
Eu ali, emocionada
sob a luz rosada
do cair da tarde.
Naquele chão terroso,
paralisada contemplava 
o espaço irreconhecível, 
cercada de saudade
da casa em que eu morava
em frente ao pátio
da estação ferroviária:

"Este mundo real ainda existe,
testemunha silenciosa
dos sonhos acalentados."

Da estação ferroviária
só restara uma calçada
em destroços, quebrada.
Parecia que sonhava:
era nessa rua de terra,
quando, menina, brincava,
nas calmas noites estreladas,
de roda, e cantava,
em frente à estação
onde, à tarde, esperava
o apito do trem das cinco,
que ruidoso passava.
Nesse cenário singelo,
nos sonhos viajava.
O trem passava...
Meus sonhos guardava,
voltando a brincar
de ciranda, cirandinha,
nesse pequeno lugar.  

E eis-me ali, 
no carro, parada,
sem coragem de mover-me,
de acordar no passado.
Um turbilhão de lembranças
incompreensíveis, amargas,
emergindo como uma névoa,
no inconsciente guardadas.

Não reconheci a menina de outrora
na mulher de então,
surgida de outra vida...

Pisei fundo.
Saí em disparada,
com os fantasmas
da infância atormentada
correndo atrás...

Caminhar

Compensar
uma janela fechada
é abrir outra,
a fim de arejar a consciência.

Caminhar
com a velocidade da vida
na aventura de viver;
com sol ou tempestade,
não ficar atrás da porta.

O mundo pode ser
um rancho luminoso
de portas abertas
para um oceano 
de possibilidades.

Gotas de luzes

Não deixe seu sofrimento
passar horas com você.
Aquiete em seu coração
a soma de perdas e mágoas,
conquistas e vitórias.

É a estrada que se abre
para o céu de cada um.
Ter uma só alma num só sentimento
com o privilégio
de perceber a felicidade.
Sentir um Deus pleno
de poder e amor,
de lágrimas e risos
no alívio da dor.

O sol pincelando com fios de ouro
no princípio da noite, derramando sobre o mar
gotas de luzes.

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