quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Sóbria e a um tempo apaixonada

À guisa de prefácio [*]

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Foi com satisfação, mas com também algum receio que concordei em assinar o prefácio desta coletânea de poemas e alguma prosa (crônicas e Causos, como definiu a autora), razão pela qual abro o mesmo me justificando. Primeiro pelo fato de que não conhecia o trabalho de Mércia Heloísa Monteiro Christani (cujo nome coincidentemente é um decassílabo, a que me permito louvar, já que tenho ouvidos apurados para a melodia das palavras); segundo porque me encontro num momento de reclusão e inércia, de apatia e total desinteresse. Creio que a criação, ao menos comigo é assim, se dá como ocorre com as plantas, sobretudo com certas árvores, que têm seu momento de floração e, após, como que desencantam, “somem”. Ao folhear o seu livro, entretanto, acredito que possa, se não apresentá-lo, indicar o caminho (ou não serão caminhos?) de seu exercício poético (e aqui me estendo inclusive a sua prosa, extremamente lírica) ao longo de mais de quatro décadas de entrega e fidelidade à arte da palavra.
Mércia Christani é mineira, mas as circunstâncias fizeram dela fluminense por excelência. Adotou-a a cidade de Barra Mansa, posteriormente fixaria residência em Volta Redonda, onde até hoje está. É retentora de premiações e títulos, como o de Cidadã Volta-redondense. Já foi professora (se bem que professor nunca se deixa de ser), atualmente advoga, e é casada e mãe de três filhos, o que significa que, para ter-se dedicado paralelamente à criação literária e a outras formas de arte, foi realmente preciso aquele chamado, aquela... voz de dentro, sussurro divino a que não se recusou, e prova-o o presente volume, reunião do que depurou, poemas e crônicas publicadas ora aqui, ora ali, nessa ou naquela coletânea, num ou noutro jornal.
Toda poesia, como as digitais das pessoas, é única. Toda prosa é peculiaridade da mão que a escreveu. E não será diferente com a autora de Andanças do coração. Suponho que tenha se identificado a princípio com Ferreira Gullar ou, talvez, Thiago de Mello, poetas engajados, cujas palavras são de denúncia das desigualdades, nem é segredo sua grande admiração pela poetisa portuguesa Maria José Bulhões Maldonado, de quem foi (e será) sempre amiga. Daí a evidência, no conjunto de sua obra, da preocupação com homem e o mundo, feito de contrastes:

Mídia
Internet
Globalização
Terceiro milênio

Na calçada
um menino tem fome.

... contrastes esses que a impedem de estar em plenitude, já que a dor alheia a incomoda e sensibiliza:

... Esta calma, esta alegria
que me invade,
de repente se acaba.
Lembrei-me de que
do outro lado existe o Vietnam.

Essa preocupação social, contudo, não sufocará o seu projeto literário, antes contribuirá com ele, que é de poesia assumidamente:

Eu quero sentir
o cheiro do mato,
e de terra molhada de chuva
também.
Eu quero ver as nuvens andando,
crianças brincando,
e a pureza também.

... pureza que deixou transparecer em todos os seus poemas, sem exceção de regra, e que, não nos enganemos, menos não ficará explícita ainda nos de apelo visual, que, é fato, a autora realizou com esmero:

POESIA
POETAR
POEMAR
É MAR
AMAR

Poesia. Poetar. Amar. Decididamente, Mércia Christani não será menos a poetisa das pequenas coisas do cotidiano, antes deixará isso muitíssimo evidente em seus versos, fato que a colocará no caminho inevitável da crônica, que ela experimentará, saindo-se, naturalmente, bem-sucedida, para tanto bastando citar aqui “De mãos dadas” e “Sabe aquele dia?”, desta última:

Sabe aquele dia que a gente acorda com uma sensação gostosa e que não sabemos por quê? É uma sensação de que tudo vai correr bem, uma alegria inexplicável que dá vontade de sair dando bom dia a conhecidos e desconhecidos, falar com aquele vizinho de cara fechada e, se ele não responder, a gente “não tá nem aí”, brincar com todos os cachorros da rua, e até sentimos um gostinho maroto de infância?

Os Causos, tesouro materno e capítulo à parte, têm por finalidade, segundo a própria autora, não deixar que se apaguem histórias algo engraçadas e corriqueiras acerca de situações envolvendo sua terra natal e sua gente, dessas que são passadas oralmente de uma geração a outra. Despretensiosos, não terão, todavia, menos acolhida junto ao seio dos que os lerem.
O livro Andanças do coração, dividido em três partes distintas, compreendendo: Poesia, Prosa e Causos, é a materialização de um sonho acalentado, à qual a acadêmica, glanista e grebalista Mércia Heloísa Monteiro Christani, de fato, faz jus. A pressa em fazer-lhe o prefácio, dado ao tempo curtíssimo imposto pelas circunstâncias, impede-me de aprofundar-me nele, o que, no entanto, em nada o subtrai. Muitas vezes, com o intento de dissecar uma criação, não fazemos senão tirar-lhe o mistério. De modo que talvez a pressa, neste momento, esteja mais para aliada. 
Confesso ter sido muito gratificante conhecer o trabalho de Mércia, e não menos gratificante fazer algumas considerações sobre ele. Obrigado à autora pela honra de prefaciá-la. Parabéns, e que tenha êxito em sua mais recente empreitada.


[*] Introdução ao livro Andanças do coração.

Do livro Andanças do coração:

Contraste

Mídia
Internet
Globalização
Terceiro milênio

Na calçada
um menino tem fome.

Poema

Este barulho gostoso do
Rio que corre,
Banhado de sol nascente,
Misturado a risos de crianças despreocupadas...
Essas brincadeiras de
Grupos jovens que se aproximam...
Esta calma, esta alegria
Que me invade,
De repente se acaba.
Lembrei-me que
Do outro lado existe o Vietnam.

De mãos dadas

Quando faço caminhada, não sei se com outras pessoas acontece o mesmo que acontece comigo: passo a olhar o que me rodeia de uma forma diferente, pois que com o lufa-lufa diário, preocupada com horários, compromissos, e sempre uma agenda cheia para tentar cumprir, muita coisa nos passa desapercebida.
Mas quando caminho, tenho um olhar meio de Raio X: começo por observar as árvores. Olho para uma árvore e começo a observar o seu formato, a cor de suas folhas, seu tamanho e fico imaginando há quanto tempo ela está ali naquele caminho, que passo todos os dias e não tive tempo para observar. Descubro também os morros, olho suas formas, sua importância naquela paisagem tão conhecida; observo os caminhos, as casas, os jardins e percebo que aquela paisagem tem tantos detalhes que só caminhando conseguimos enxergar.
E observar as pessoas caminhando é um capítulo à parte: encontramos todos os tipos de “caminhantes”: os tranquilos, que caminham passeando, os apressadinhos que passam “marchando”, os corredores, os compenetrados, que nos passam a ideia de que a caminhada é realmente uma atividade séria e necessária.
Porém, dias atrás, o que mais me chamou a atenção na caminhada foi um casal de idosos, caminhando de mãos dadas. Aparentavam mais de setenta anos. Passaram por mim com suas fisionomias serenas, passos lentos, mas aqueles rostos com as marcas do tempo, aqueles cabelos brancos, me deixaram uma sensação de alegria e esperança. Caminhar naquela idade, de mãos dadas, nos faz refletir: o que há por trás daquelas rugas? Imaginamos que, como todo mundo, é impossível que chegassem àquela idade sem problemas! O que será que já viveram? Com certeza são pais, avós ou até bisavós. No entanto, com aquela serenidade em seus rostos que tanto me impressionou, fico a imaginar que os problemas que porventura possam ter tido souberam resolver, as alegrias souberam desfrutar, e continuo a pensar: se naquela idade fazem caminhada de mãos dadas, passando a sensação de paz, sabedoria, mesmo sem o saber, concluímos que nesse mundo tão conturbado, podemos tirar uma lição até numa simples caminhada e principalmente a certeza de que não podemos perder a esperança.

Sabe aquele dia?

Sabe aquele dia que a gente acorda com uma sensação gostosa e que não sabemos por quê? É uma sensação de que tudo vai correr bem, uma alegria inexplicável que dá vontade de sair dando bom-dia a conhecidos e desconhecidos, falar com aquele vizinho de cara fechada e, se ele não responder, a gente “não tá nem aí”, brincar com todos os cachorros da rua e até sentimos um gostinho maroto de infância?
Os nosso sentidos ficam mais aguçados: percebemos como o céu está mais bonito, observamos as nuvens andando, percebemos o azul, o vermelho das flores, achamos bonitos os morros de nossa cidade! Percebemos que o jornaleiro é simpaticíssimo!
E aí que nos vem a pergunta: será que nos conhecemos?
E aí percebemos que a nossa alma é um emaranhado de caminhos onde ora percorremos o caminho da dúvida, ora o da insegurança e do baixo-astral e ora enveredamos pelo caminho da felicidade (como hoje), sem um porquê. Então, aproveitemos esse dia de sensação gostosa e vamos procurar gravar na alma, sem deletar qualquer sensação de alegria e quem sabe, com jeitinho, dar uma rasteira naqueles dias em que acordamos tristes e desiludidos, achando a vida descolorida, as pessoas meros passantes, o simpático jornaleiro sem carisma, os morros cinzas e sem graça e sequer notamos o céu, as nuvens, os cachorros, as flores...
Será que nos conhecemos? É bom que nos aconteçam essas “variações” de estado de alma, de humor, para que possamos fazer uma introspecção, uma meditação, pegando carona nos budistas e nas pessoas zen, para tentarmos percorrer os caminhos d’alma. E que caminhos...
Nós, seres humanos, surpreendemos os outros e nos surpreendemos também!
Vá, agora, tentar entender tanta mutação!
O que nos resta fazer? Agarrar com unhas e dentes essa sensação gostosa de hoje, e como diz o ditado: olhar para trás e para os lados, e ver como temos uma herança maravilhosa para sermos felizes: um lindo dia ensolarado, a saúde, a inteligência, a capacidade de nos doarmos e fazermos amigos, a possibilidade de nos melhorarmos a cada dia e ter a certeza que podemos perseguir a felicidade, pois ela com certeza é um legado a nós seres humanos muitas vezes complicados e então vamos mesmo dar uma rasteira na tristeza, na desilusão e vamos ser felizes, que é um direito nosso e sagrado!

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