quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

"Prosa e verso"

À guisa de prefácio


O volume Prosa e verso XIII aconteceu pelo fato de nosso presidente, J. M. do Lago Leal, sentir e expressar-nos a necessidade da retomada de um dos projetos mais significativos do Grêmio Barra-mansense de Letras, infelizmente interrompido desde que nos deixou Eliette Ferreira, em 2004, que é o das publicações periódicas de coletâneas e antologias coletivas, com o intuito de, sobretudo, atender ao desejo daqueles grebalistas que se têm dedicado ao ofício da escrita de, em algum momento, poderem ver seus trabalhos impressos em livros bem-acabados e de indiscutível valor moral e estético. Tal investida, entretanto, foi de contratempos, o que causou certa demora na realização do projeto.

Dividida em duas partes, a obra apresenta, na primeira, um pouco de prosa (contos e crônicas) e poesia concebidas no momento em nossa região. São textos em sua maioria inéditos, de autores estreantes ou já conhecidos do público, como é o caso de Max Teixeira, contista, e de Menulfo Nery Bezerra, poeta. Na segunda, uma seleção criteriosa do que melhor se fez nestas últimas décadas em Barra Mansa e adjacências, apesar de que muito se tenha deixado de fora pela impossibilidade de, de uma só vez, mostrarmos todos os nossos talentos. Como é gratificante tornar a folhear uma Jane Maleck ou um Milton Rangel, sempre nos parecendo novidade pela emoção que transborda de seus textos. Capítulo, na verdade, de poesia, a prosa nas páginas em questão revisitada sugere uma como que apresentação dos poetas. Apresentação, todavia, que não é a comum das coletâneas anteriores, aquela biobibliografia a que estamos acostumados, e se por um lado pode pecar pela não precisão, quando não ausência dos dados de determinado autor, por outro, ganha em riqueza de detalhes e de lirismo. São linhas lapidadas, textos realizados com certo capricho, requinte, alguns com um quê de crítica ou de crônica, se não isso mesmo, arte verdadeira, como a belíssima peça escrita por Eliette Ferreira, em que relembra a saudosíssima figura de Oswaldo Porto, ou a de Maria José Bulhões Maldonado, inspirada no gesto amigo de Francisco Nogueira: de pôr-lhe a mão amiga sobre o ombro e pedir-lhe alguma coisa em... prosa. A ela, que até aquele momento se devotara unicamente à poesia. Se o texto de Maldonado nada tem de biográfico acerca do poeta de Sonetos e legendas, ao menos nos mostra do que é capaz a paixão pela palavra escrita. Fê-lo muito bem a poetisa portuguesa. Tal crônica como introdução aos versos de Francisco Nogueira não será mais que uma homenagem ao poeta, contista, trovador e ensaísta? E, afinal, não acabará por ser mais que uma homenagem também a ela. Pensemos nisso. Termos inserido peças em prosa de tal brilho em parte de uma obra cujo propósito é reverenciar o talento de nossos artífices da palavra, intercalando-as com as poesias destes, a nós nos deu o prazer de uma dupla homenagem, porque, em razão de tanta beleza e entusiasmo expressos ao longo de suas páginas (façamo-nos entender), brindamos tanto aos que ali estão sendo reverenciados como aos que tiveram suas crônicas introdutórias e ensaios reeditados. Tanto àqueles quanto a estes brindamos, indistintamente. Como negar a qualidade literária do artigo de Nogueira, em que esmiúça o poema “Tempo-vento”, de Lago Leal, ou, ainda, de seu prefácio ao livro do amigo Milton Rangel, tudo isso lá pelos idos de 1970? Pois eis que, ao reproduzirmos “Tempo-vento — poema de J. M. do Lago Leal”, e “Prefácio”, não só a reconhecemos como justo preito rendemos àquele que tais textos concebeu. Em resumo, o que pode parecer arbitrário ou sem sentido a princípio, não o é de fato. Em últimas circunstâncias, consideremos tal uma... licença.



[1] Introdução ao livro Prosa e verso XIII.

 

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Pessoalíssima e envolvente [1]

Dona de um estilo personalíssimo e envolvente, Maria José Bulhões Maldonado fez-se autora de uma poesia de comprometimento social, engajada, e, sobretudo, pertencente a seu tempo. No livro de estreia: Cântico à vida, publicado em Portugal, terra que a viu nascer, conquanto manifestasse muito da paixão característica de sua obra, ainda não apontava para o complexo tema que viria a abordar — o do homem dentro de uma sociedade injusta e cruel, marcada por desigualdades e pela cobiça desmedida de uma minoria privilegiada, mas o fato é que, já em Teia do tempo, seu segundo livro, confeccionado pela Tempográfica S.A.R.L., em Lourenço Marques — África Oriental, em poema de abertura ela é direta: “Abri-me a porta da vossa dor”. Di-lo a poetisa numa atitude de generosidade e de amor pelo seu semelhante. E é esse sentimento que percorrerá as páginas seguintes da coletânea, sentimento que se tem estendido ainda, com o mesmo fervor, às obras escritas por ela hoje, e com o qual estampa, em antologias e jornais, poemas de denúncia e participação, nunca à margem das questões que afligem o homem e para as quais, parece, somente na partilha e na comunhão haverá saída. Dias habitados, seu terceiro volume de versos, é, com certeza, seu livro mais saudado. Constituído de textos de largo fôlego e vibrante inspiração, imprime definitivamente essa marca em Maldonado — a de um coração sensibilizado com a existência humana e seus problemas: “Comportas da minh'alma abri-vos/deixai entrar:/todos os mendigos do sonho//todos os  miseráveis do isolamento/todos os vagabundos do amor/todos as prostitutas do cais/todos os bêbados de ódio/todos os pederastas/todos os negros dos batelões/jangadas e pirogas”. Em Perspectivas de pássaro, a meu ver, seu mais belo trabalho, a autora cede lugar a um discurso menos inflamado, apesar de que não menos profundo, à feição de Teia do tempo, e nele amplia sua temática. É, a essa altura, senhora de si, e o que fará daí em diante é “puro exercício de voo”. Acerca dessa poetisa de talento excepcional e de quem tenho a honra de ser amigo, mais apropriados não serão outros que os versos de Fernando Pessoa, que dizem: “Assim, em cada lago, a lua toda/ brilha, porque alta vive.”


[1] In Prosa e verso XIII.  
                                                                       
                                                                                                    ******

Alexei Bueno e sua poesia

O lirismo arrebatador de Alexei Bueno é um desses casos de singularidade constatados em pouquíssimos poetas, como, por exemplo, em Mário de Andrade, a partir de Pauliceia desvairada, em Vinicius de Moraes, principalmente o de Forma e exegese, Ariana, a mulher e Poemas, sonetos e baladas, em Fernando Pessoa e seus heterônimos, em Carlos Drummond de Andrade ao longo de sua vasta obra, em João Cabral de Melo Neto e em Ferreira Gullar, e, ainda, em Affonso Romano de Sant’Anna, Renata Pallottini e Adélia Prado, para citar alguns nomes mais recentes. Em todos esses autores o que há de comum é o discurso autêntico, refinado e, ainda que, às vezes, enigmático, sempre contagiante. Artífices desse quilate têm de sobra aquilo de que mais se precisa em poesia: expansividade, com o que conseguem prender de fato a atenção do leitor afeito ao gênero, ficando muitos de seus textos perpetuados na história da literatura, bastando lembrar, a título de curiosidade, o famosíssimo “Soneto de fidelidade”, do “Poetinha”, cuja presença em livros didáticos e antologias e cuja recitação, feita pelo próprio poeta, no meio da canção “Eu sei que vou te amar”, também de sua autoria, o popularizariam como raros, raríssimos poemas em língua portuguesa. E assim, pela presença em livros didáticos e antologias, “Autopsicografia”, de Pessoa, e, assim, do vate de Itabira, o verso: “E agora, José?”, tornado “expressão corrente da língua”, como observa Júlio Castañon Guimarães, no posfácio ao livro José, editado pela Companhia das Letras, e, assim, pela mesma razão, sem exagero, quase todos os textos do livro Dentro da noite veloz, de Ferreira Gullar. Mas voltemos ao poeta em questão. Aos que o não conhecem e à sua poesia, Alexei Bueno publica em 1984, aos vinte e um anos de idade, seu primeiro livro: As escadas da torre, todo ele vazado em versos rigorosamente medidos e de rimas perfeitas, algo incomum, então, ao público da poesia, bem como aos que se dedicam à crítica e/ou à criação dessa categoria literária. Grande variedade de ritmos e musicalidade, alcançada pelo emprego de algumas figuras de retórica, sobretudo a aliteração, vestindo de forma plena a ideia que o autor quer transmitir, sua visão do mundo, da vida e dos seres com um realismo cru, o mais das vezes sarcástico, são o que se verifica ao longo das quase 300 páginas da obra, onde o soneto se destaca. Em 1985, vêm a lume os Poemas gregos, nos quais se expressa, pode-se resumidamente assim dizer, um eu lírico atual, conquanto dentro de moldes categoricamente de sabor clássico: estrofes brancas, inversões e referências a seres da mitologia. A Poemas gregos se seguem Livro de haicais e A decomposição de J. S. Bach, ambos de 1989. Enquanto aquele reverencia a consagrada expressão poética japonesa sintetizada em três versos, de 5, 7 e 5 sílabas métricas, respectivamente, em que a contemplação, a imagem predominam (Ao tocar na água,/ A inversa imagem das árvores/ Tirita de frio.), A decomposição de J. S. Bach, por sua vez, é um denso poema em dez partes, enumeradas, cujas linhas assimétricas, caudalosas, reportando-nos a Álvaro de Campos, Walt Whitman, sugerem até que ponto pode um grande artífice se desdobrar, casando tão bem técnica e dom. A partir daí, elegerá o poeta os modelos de forma fixa explorados em seu trabalho de estreia, os quais, já enxutos e depurados, evidentemente, se perpetuarão através de, sem exagero, verdadeiras obras-primas, constantes de coletâneas como Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006), etc., que, alternadas com textos à feição de A decomposição de J. S. Bach, isto é, torrenciais, segmentados, compreendendo integralmente o volume a que dão título (modelo que também jamais abandonará), lhe garantirão lugar entre os maiores nomes da poesia brasileira da atualidade. 

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