O volume Prosa e
verso XIII aconteceu pelo
fato de nosso presidente, J. M. do Lago Leal, sentir e expressar-nos a necessidade
da retomada de um dos projetos mais significativos do Grêmio Barra-mansense de
Letras, infelizmente interrompido desde que nos deixou Eliette Ferreira, em
2004, que é o das publicações periódicas de coletâneas e antologias coletivas,
com o intuito de, sobretudo, atender ao desejo daqueles grebalistas que se têm
dedicado ao ofício da escrita de, em algum momento, poderem ver seus trabalhos
impressos em livros bem-acabados e de indiscutível valor moral e estético. Tal
investida, entretanto, foi de contratempos, o que causou certa demora na
realização do projeto.
Dividida em duas partes, a
obra apresenta, na primeira, um pouco de prosa (contos e crônicas) e poesia
concebidas no momento em nossa região. São textos em sua maioria inéditos, de
autores estreantes ou já conhecidos do público, como é o caso de Max Teixeira,
contista, e de Menulfo Nery Bezerra, poeta. Na segunda, uma seleção criteriosa
do que melhor se fez nestas últimas décadas em Barra Mansa e adjacências,
apesar de que muito se tenha deixado de fora pela impossibilidade de, de uma só
vez, mostrarmos todos os nossos talentos. Como é gratificante tornar a folhear
uma Jane Maleck ou um Milton Rangel, sempre nos parecendo novidade pela emoção
que transborda de seus textos. Capítulo, na verdade, de poesia, a prosa nas
páginas em questão revisitada sugere uma como que apresentação dos poetas.
Apresentação, todavia, que não é a comum das coletâneas anteriores, aquela
biobibliografia a que estamos acostumados, e se por um lado pode pecar pela não
precisão, quando não ausência dos dados de determinado autor, por outro, ganha
em riqueza de detalhes e de lirismo. São linhas lapidadas, textos realizados
com certo capricho, requinte, alguns com um quê de crítica ou de crônica, se
não isso mesmo, arte verdadeira, como a belíssima peça escrita por Eliette
Ferreira, em que relembra a saudosíssima figura de Oswaldo Porto, ou a de Maria
José Bulhões Maldonado, inspirada no gesto amigo de Francisco Nogueira: de
pôr-lhe a mão amiga sobre o ombro e pedir-lhe alguma coisa em... prosa. A ela,
que até aquele momento se devotara unicamente à poesia. Se o texto de Maldonado
nada tem de biográfico acerca do poeta de Sonetos e legendas, ao menos nos
mostra do que é capaz a paixão pela palavra escrita. Fê-lo muito bem a poetisa
portuguesa. Tal crônica como introdução aos versos de Francisco Nogueira não
será mais que uma homenagem ao poeta, contista, trovador e ensaísta? E,
afinal, não acabará por ser mais que uma homenagem também a ela. Pensemos
nisso. Termos inserido peças em prosa de tal brilho em parte de uma obra cujo
propósito é reverenciar o talento de
nossos artífices da palavra, intercalando-as com as poesias destes, a nós
nos deu o prazer de uma dupla homenagem, porque, em razão de tanta beleza e
entusiasmo expressos ao longo de suas páginas (façamo-nos entender), brindamos
tanto aos que ali estão sendo reverenciados como aos que tiveram suas crônicas
introdutórias e ensaios reeditados. Tanto àqueles quanto a estes brindamos,
indistintamente. Como negar a qualidade literária do artigo de Nogueira, em que
esmiúça o poema “Tempo-vento”, de Lago Leal, ou, ainda, de seu prefácio ao
livro do amigo Milton Rangel, tudo isso lá pelos idos de 1970? Pois eis que, ao
reproduzirmos “Tempo-vento — poema de J. M. do Lago Leal”, e “Prefácio”, não só
a reconhecemos como justo preito rendemos àquele que tais textos concebeu. Em
resumo, o que pode parecer arbitrário ou sem sentido a princípio, não o é de
fato. Em últimas circunstâncias, consideremos tal uma... licença.
O lirismo arrebatador de Alexei Bueno é
um desses casos de singularidade constatados em pouquíssimos poetas, como, por
exemplo, em Mário de Andrade, a partir de Pauliceia
desvairada, em Vinicius de Moraes, principalmente o de Forma e exegese, Ariana, a
mulher e Poemas, sonetos e baladas,
em Fernando Pessoa e seus heterônimos, em Carlos Drummond de Andrade ao longo
de sua vasta obra, em João Cabral de Melo Neto e em Ferreira Gullar, e, ainda, em
Affonso Romano de Sant’Anna, Renata Pallottini e Adélia Prado, para citar alguns
nomes mais recentes. Em todos esses autores o que há de comum é o discurso
autêntico, refinado e, ainda que, às vezes, enigmático, sempre contagiante. Artífices
desse quilate têm de sobra aquilo de que mais se precisa em poesia: expansividade,
com o que conseguem prender de fato a atenção do leitor afeito ao gênero,
ficando muitos de seus textos perpetuados na história da literatura, bastando
lembrar, a título de curiosidade, o famosíssimo “Soneto de fidelidade”, do “Poetinha”,
cuja presença em livros didáticos e antologias e cuja recitação, feita pelo
próprio poeta, no meio da canção “Eu sei que vou te amar”, também de sua
autoria, o popularizariam como raros, raríssimos poemas em língua portuguesa. E
assim, pela presença em livros didáticos e antologias, “Autopsicografia”, de
Pessoa, e, assim, do vate de Itabira, o verso: “E agora, José?”, tornado “expressão
corrente da língua”, como observa Júlio Castañon Guimarães, no posfácio ao
livro José, editado pela Companhia
das Letras, e, assim, pela mesma razão, sem exagero, quase todos os textos do
livro Dentro da noite veloz, de Ferreira
Gullar. Mas voltemos ao poeta em questão. Aos que o não conhecem e à sua
poesia, Alexei Bueno publica em 1984, aos vinte e um anos de idade, seu
primeiro livro: As escadas da torre,
todo ele vazado em versos rigorosamente medidos e de rimas perfeitas, algo
incomum, então, ao público da poesia, bem como aos que se dedicam à crítica
e/ou à criação dessa categoria literária. Grande variedade de ritmos e
musicalidade, alcançada pelo emprego de algumas figuras de retórica, sobretudo
a aliteração, vestindo de forma plena a ideia que o autor quer transmitir, sua
visão do mundo, da vida e dos seres com um realismo cru, o mais das vezes
sarcástico, são o que se verifica ao longo das quase 300 páginas da obra, onde
o soneto se destaca. Em 1985, vêm a lume os Poemas
gregos, nos quais se expressa, pode-se resumidamente assim dizer, um eu
lírico atual, conquanto dentro de moldes categoricamente de sabor clássico:
estrofes brancas, inversões e referências a seres da mitologia. A Poemas gregos se seguem Livro de haicais e A decomposição de J. S. Bach, ambos de 1989. Enquanto aquele reverencia
a consagrada expressão poética japonesa sintetizada em três versos, de 5, 7 e 5
sílabas métricas, respectivamente, em que a contemplação, a imagem predominam (Ao
tocar na água,/ A inversa imagem das árvores/ Tirita de frio.), A decomposição de J. S. Bach, por sua
vez, é um denso poema em dez partes, enumeradas, cujas linhas assimétricas,
caudalosas, reportando-nos a Álvaro de Campos, Walt Whitman, sugerem até que
ponto pode um grande artífice se desdobrar, casando tão bem técnica e dom. A
partir daí, elegerá o poeta os modelos de forma fixa explorados em seu trabalho
de estreia, os quais, já enxutos e depurados, evidentemente, se
perpetuarão através de, sem exagero, verdadeiras obras-primas, constantes de
coletâneas como Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006), etc., que, alternadas com textos à feição de A decomposição de J. S. Bach, isto é,
torrenciais, segmentados, compreendendo integralmente o volume a que dão título (modelo que
também jamais abandonará), lhe garantirão lugar entre os maiores nomes da
poesia brasileira da atualidade. ******

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