Por prefácio [*]
Após impor-se como prosador, com os romances-ensaios Caravana e Prisão sem grades, de 1978 e 1993 respectivamente, e como poeta, com Meu mar interior, de 2000, J. M. do Lago Leal reaparece agora com As pedras da catedral, volume de contos, ensaios e artigos, publicados em folhetins e periódicos de Barra Mansa e adjacências. Dividido conforme o gênero, trata-se de um trabalho em que o autor se mostra deveras versátil e, até certo ponto, fértil. Inovador sem se desvincular da tradição, torrencial e comedido, vai da filosofia complexa do homem em busca de si mesmo à ficção genuína de nossa literatura oitocentista, aquela que nos remete a um José de Alencar em suas descrições e relatos dos costumes de então, acrescentando-lhe evidentemente elementos de hoje, esse hoje que foi na verdade nossa querida Barra Mansa dos idos de 1940, 50, 60, em que ainda apitava o trem poeticamente, e havia quintais, jardins, e pombos nos passeios, e crianças que brincavam nas ruas sem tantas restrições, e que sequer imaginavam o mundo alucinado pela parafernália virtual desta virada de século a um tempo evoluída tecnicamente e extremamente estressante e desoladora. Sinto que carecemos de um momento de pausa em nossa vida atribulada, longe dos ruídos das avenidas congestionadas e do burburinho dos transeuntes, a fim de nos dedicarmos à leitura por entretenimento, pelo prazer da companhia silenciosa de um livro, digo melhor: de um bom livro, capaz de nos envolver com sua mensagem dignificante — e espontânea, que um bom, bom livro, é espontâneo, e simples, sobretudo simples. O próprio autor nos assegura que é preciso cuidado para não afetar a linguagem, que hermetismo é defeito quando a função de um texto é conduzir, é apontar uma direção, é presentear com uma descoberta. Mas voltemos um pouco, quando disse: “até certo ponto, fértil”; justifico-me: pelo fato de que a produção literária de J. M. do Lago Leal é fruto de um labor de parcos momentos, homem integrado que foi nas múltiplas atividades de empresário, o que nos leva a crer que, em circunstâncias outras, com quanto mais nos encantaria. Todavia, a qualidade do que se depurou em seus trabalhos, e isso, sim, se ressalte, é o que realmente importa. Importa-nos é saber que, como a poesia, a prosa de Lago Leal, sobretudo os contos, perpassados do mais puro lirismo, exercem em nós certo fascínio, pelo que têm a dizer, pela boca de seus personagens, como em “As pedras da catedral”:
“—Eu creio! Eu creio! Oh! Velhas pedras! Agora eu creio! Tudo no Universo é Vida e Harmonia. Há mais vida e mais Deus, com certeza, nestas velhas pedras ou nos cardos de um rochedo nu do que em todas as bíblias de nossa vã filosofia. Oh! Natureza! A verdadeira bíblia és tu.”
ou, por sua própria voz, como em “Um jovem médico”:
“Quando se ama realmente, quando duas almas vibram em uníssono, são, às vezes, desnecessárias as palavras. Porque os sentimentos puros são raios de luz. Brotam do fundo do cérebro e morrem, quase sempre, ao esbarrar no molambo da língua, impotente para exprimi-los. Quando realmente se ama, um simples gesto, um olhar, uma expressão facial, um quase nada e o silêncio bastam para que dois seres se entendam.”
Conquanto se divida em três gêneros: conto, ensaio e artigo, e aborde, em todos eles, temas os mais diversos, como o amor — carnal e espiritual, a alma humana — no que tem de mais peculiar, o social, etc., mantém o livro certa unidade; e embora, a cada texto, nos surpreendamos com ambiente, personagens, circunstâncias novas, ainda assim, por disfarçada que se faça, a preocupação com a mensagem redentora de vida está ali, como em Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, ou no universal O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry.
Da primeira parte (os contos), chamo a atenção para a preocupação de Leal em pincelar com fidelidade, exatidão, os personagens, sobretudo os tipos desses interiores de nossa pátria, “desses rincões” — em suas próprias palavras — e, desse modo, as maneiras, o pensar e falar dos mesmos:
“— Maravilhante natureza, que só mesmo Deus — pensava Januário Pé-de-Vento, acocorado à margem (ora esquerda, ora direita, que rio é como a vida da gente — uma hora tem banda boa, outra hora a tem ruim — e pescador é, como um de nós, vivente, que a cada hora pode estar numa banda; boa, boamente, má ou malissimamente).”
Da segunda parte (os ensaios), mister é salientar o discurso primoroso, e intencionalmente didático, de “Os valores interiores”, direcionado à juventude, em que, valendo-se o autor simultaneamente das funções apelativa e poética da linguagem, aconselha:
“Cultiva dentro de ti algo que te baste, que te complete. Porque o homem superior é independente do meio. Planta na mocidade, quando ainda desfrutas dos prazeres dela, o jardim interior através do intelecto, do gosto pelas Artes e as coisas do Espírito. Porque a juventude se esvai como nuvem de fumaça em céu de agosto e as exterioridades desaparecerão, assim como os prazeres do mundo aos quais te acostumaste.”
A parte final do livro (os artigos) é aquela em que nos falará mais diretamente. É a primeira pessoa, em “A transcendência de Deus”, valendo-se, contudo, para enriquecimento e estética do texto, do plural:
“Não somos muito dados à televisão. Enquanto os familiares assistem no segundo pavimento, preferimos sempre o silêncio da biblioteca, no térreo.”
... e é o homem pesquisador, bem informado, de “Democracia”, saudosista, de “Carnaval — show da vida”, e, ainda, o lírico de tons confessionais, de “Fantasia e realidade”:
“Quando um pobre diabo a que chamamos “homem moderno” se arvora em comerciante, literato e universitário, a coisa se complica um pouco. A madrugada, tempo à parte, hora mágica da Eternidade, passa então a ser o seu Mundo.”
Asseguro que o presente volume de prosa de J. M. do Lago Leal é desses livros que nos marcam e fazem, assim, sua história. Como Feliz ano velho, de Rubens Paiva, acredito, trilhará por si.
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Hesito em estender-me mais. Não, não o farei. Esmiuçada a obra, tirar-se-iam ao leitor, talvez, as surpresas e a poesia que nela há e abundantemente. Termino, todavia, com estas palavras instigantes de seu belíssimo ensaio denominado “Da condição humana”:
“Pergunte ao vento: Qual tem mais resistência? O soberbo carvalho ou o humilde junco? Se ele pudesse, responderia que é mais fácil vencer àquele, porque se lhe opõe, do que a este, que lhe cede.”
Do livro As pedras da Catedral:
Iniciação
Era Carnaval. Nos idos de 1940 o povo brincava o Carnaval nas ruas. A principal, denominada Avenida, era um imenso salão de bailes, onde a multidão se acotovelava e espremia, de mistura a blocos, ranchos, escolas de samba. Confete atapetava o chão, resultado das inúmeras “batalhas de confete”. Serpentinas, serpentes finas, enormes fitas de papel multicoloridas riscavam os ares e se enroscavam nos foliões. O lança-perfume era liberado, proibido mais tarde por motivos óbvios. A “turma” se embriagava cheirando o líquido à base de éter e ficava “doidona”. Sem falar na ardência dos olhos quando o líquido os atingia, o que se dava com grande frequência, pois até nas brincadeiras pode-se denotar a maldade humana. Os jornais da época denunciavam: “O Brasil gasta mais de 40 toneladas de éter em cada Carnaval. O bastante para suprir de anestesia todos os hospitais do mundo.”
Por ocasião dos festejos, a Prefeitura mandava montar palanques de madeira, que ficavam apinhados de pessoas procurando uma visão melhor dos foliões.
Zé Maria estava em um dos palanques. De repente divisou Silene. Empurrando e sendo empurrado, espremendo e sendo espremido, pela massa de povo muita, Zé Maria aproximou-se de Silene, encostando-se nela, fazendo notar sua presença. Zé Maria: dezessete anos, um tanto tímido e arredio, mas forte e saudável, sentindo o apelo do sexo gritar bem alto em suas entranhas. Silene havia pouco tinha se perdido. Roubaram-lhe a virgindade os arroubos incontidos de sua própria índole sensual. Não resistira às carícias do namorado matreiro e, como nas cidades pequenas tais coisas não ficam mesmo em segredo, todo mundo já sabia, inclusive Zé Maria. Silene era magra, pálida, olhos grandes, um tanto sardenta, mas de formas proporcionais. Possuía um belo corpo. O rapaz chegou-se mais a ela. As pessoas se comprimiam no quadrilátero de madeira quais “sardinhas em lata”. Todos queriam ver as Escolas de Samba.
Uma delas passou cantando:
“Tens o corpo marcado e eu sei o motivo
Tens a alma cansada de tanto penar
Por que é que não vens procurar lenitivo
Na última chance que eu quero te dar?...”
O povo vibrava. “Bahianas” em múltiplos requebros, foliões brilhando de suor, no esforço para sustentar a cadência quente dos tamborins, pandeiros, cuícas e surdos. Alguns vestidos como escravos negros, pingando suor, como os outros do passado, seus bisavós. Com a diferença apenas de que esses eram escravos do tambor e da folia, não da enxada e do eito...
Todos olhavam, menos Zé Maria. Ele olhava para Silene, entre nervoso e excitado, com a aproximação daquele corpo quente e sensual, comprimido junto ao seu. Tentava adivinhar as formas esguias, a curva dos quadris e os contornos da menina. Ele a despiu, demoradamente, com a imaginação e excitou-se. Aos dezessete anos a natureza é exuberante, túrgida de vida.
Ela olhou para ele e viu logo que o rapaz não estava a fim de Carnaval. As mulheres, desde jovens, têm o sexto sentido, que funciona rápido como o pensamento. Zé Maria era tímido. Se ela não tivesse olhado para ele com aquele jeito de “pode ser”, talvez jamais tivesse concretizado seu desejo. Porém, após o olhar lânguido, que se poderia tomar como consentimento antecipado, como não levar a coisa avante? Afinal, onde ficariam seus brios de macho? Respirou fundo, criou coragem e sussurrou ao ouvido de Silene:
– Te espero na pensão Gonzaga, do lado da linha, tá? Você vai?
– Vou – disse ela, demorando-se um pouco na resposta.
O coração parecia nesse instante um cabrito novo no pasto, tais os pulos que dava. Zé Maria pensou mesmo se os outros poderiam ouvir suas pancadas, como ouviam as batidas do surdo tocado pelo Tião Marreta, o crioulo mais forte da Escola de Samba.
O descompasso do coração, entretanto, não arrefeceu o impulso do sexo e ele seguiu para a Pensão Gonzaga, desvencilhando-se de todo aquele povo que lotava o palanque, dando cotoveladas nos foliões que enchiam a rua.
A Pensão era retirada do centro, à beira dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Um casarão antigo, a maioria das paredes ainda de pau-a-pique, como era também chamado esse tipo de construção, quando não havia ainda produção regular de tijolos. Algumas partes do casarão, por não terem resistido à ação corrosiva do tempo, apresentavam reforma recente com materiais modernos. Contudo, era quase um montão de ruínas, marco apodrecido de passadas eras, de remotas vivências.
Ah!... se falassem as paredes daquele casarão... Entretanto, no Mundo, o que salva a decência é o silêncio da indecência...
– Demorei? – perguntou Silene, olhos baixos, submissa.
– Não – disse Zé Maria, que estava à sua espera na porta do pardieiro.
Entraram. Silene na frente, com ares de quem já conhecia a casa.
O quarto era um cubículo. Zé Maria sentou-se na cama e começou a despir-se. Silene, ainda de olhos baixos, envergonhada (ou fingindo), pediu que apagasse a luz.
O prazer dele foi rápido.
O dela nenhum.
– Quanto é? – perguntou Zé Maria.
– Dá cinco, tá? – disse Silene baixinho, com voz quase inaudível.
... A vida, movimentando as grandes engrenagens do instinto e do comportamento humanos, acabava de iniciar dois jovens: José Maria, nos mistérios do sexo. Silene, na mais antiga profissão da Humanidade.
Por longe, ouvia-se o estrépito dos tambores, dos pandeiros, das cuícas, dos tamborins.
Era Carnaval...
Do latim: Carna Valis, Vale a Carne...
Os valores interiores
Cultiva dentro de ti algo que te baste, que te complete. Porque o homem superior é independente do meio. Planta na mocidade, quando ainda desfrutas dos prazeres dela, o jardim interior através do intelecto, do gosto pelas Artes e as coisas do Espírito. Porque a juventude se esvai como nuvem de fumaça em céu de agosto e as exterioridades desaparecerão, assim como os prazeres do mundo aos quais te acostumaste.
Quando a chama do sexo se apagar; dos prazeres da mesa farta não mais puderes desfrutar; quando o corpo cansado, as células gastas e intoxicadas pela vida, te exigir mais espírito do que físico, tu tens de estar preparado.
E será então chegada a hora de colheres o que plantaste em teu jardim interior.
Se nada tiveres semeado, obviamente nada colherás. E o sol do desalento e do inconformismo crestará a terra árida e seca do teu espírito inculto.
Lembra-te, meu filho, há no mundo muito mais espírito do que terras por cultivar. Cultiva, portanto, o teu espírito, ampliando-o através da vivência e do estudo; através da sensibilidade das Artes e da Cultura em suas mais diversas manifestações. Elege na Ciência, na Literatura, na Escultura, na Pintura ou na Música a tua companhia que na solidão final estará contigo. Lembra-te de que somos todos uns eternos solitários. Ninguém te fará companhia indefinidamente. Cada ser é um Universo à parte.
Se não cultivares os valores interiores, se não descobrires a tua luz e a conservares acesa, quando o brilho da exterioridade se apagar, teu Universo se desintegrará no caos do desespero.
Porém, se pelos valores interiores tu te bastares a ti próprio, não estarás sozinho quando fores obrigado a dizer com o poeta:
— “Eu morro... Eu morro...
A matutina brisa já não me arranca um riso.
A fresca tarde
já não me doura as descoradas faces,
que gélidas se encovam”...
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