Como o ourives, que trabalha cuidadosamente o brilhante, ou o escultor, que do mármore bruto concebe a estátua divina, Eliette Ferreira é desses artistas da palavra para os quais o texto é consequência de um trabalho minucioso, de gestação demorada, mas que resulta esplêndido e comove mesmo aqueles que para a leitura não têm (ou creem não ter) inclinação. Notável cronista, tendo, sob o pseudônimo de Isa Dora, colaborado no jornal O Líder, assinando a coluna “Gente”, de onde nos saem como brindes, mais tarde, frutos de um senso crítico e perseverar ímpares, os volumes Retalhos de prosa e Isadorianas, e igualmente contista, o que a levou à publicação de Os olhos do falecido, juntamente com Francisco Nogueira e José Fleming, com o livro de estreia: Querências, revelará a grande sensibilidade poética que lhe percorre as veias. E isso implica dizer dona, como poetisa, de um estilo maduro, próprio, sem os experimentalismos por que tantos se enveredam em busca de algo novo, não raro, entretanto, anêmico, perecível. Prima pelo bom gosto. Vale-se, com a mesma naturalidade, da liberdade conquistada pelos poetas de 22 como da rijeza rítmica daqueles que os antecederam. E talvez aí resida a sua marca. Se sobre a crônica se debruça concentrada — artífice impecável que é —, em poesia, exala-se, como que sai do casulo, trêmula, bela, colorida, ora aludindo à eterna criança que há em nós, sobretudo, a menina que há em si, como o atestam os fragmentos que seguem, do poema “Versos para uma adolescente” (in Poesia irmanada, coletânea editada pelo Grêmio Barra-mansense de Letras, em 1999): “E a criança que não mais queremos ser?/ Em que inatingível instante nos deixou?/Onde ficou? — Irremovível/ sombra de nossas sombras,/conosco para sempre.../ enquanto formos gente!”, ora, à maneira de Cecília Meireles, cantando exuberantemente o amor: “Chegaste há pouco. Entanto, muito antes,/ eu te buscava nas infinitas distâncias/ porque te adivinhava.../ E em teus cabelos de prata, a brisa/ — dedos meus que te tocavam —/ em sussurros dizia/ que eu te amava...” (in Querências), não sendo poucas as manifestações, em sua obra poética, de crença numa existência que transcenda a física. Nesse sentido, muito evidente está que os versos de “A prometida”: “O mundo inda não era e eu já vivia,/ essência tua em tua evolução.” (ibidem) comungam com os do antológico “Tempo paralelo”, em que a intuição feminina no terreno da paixão freme e nos extasia já a partir do título. Evidente também que a autora, sóbria e magnificamente, dá-nos, naqueles, do ponto de vista técnico, mostra de sua estética, a um tempo moderna e tradicional, uma vez que, tendo-lhes dispensado a rima, não lhes dispensou a medida, elaborando-os virtuosamente, conforme o ritmo e a cesura, ora sáficos, ou seja, na segmentação 4-8-10, ora, na segmentação 6-10, heroicos, portanto. Outro exemplo significativo disso é, sem dúvida, “Expectativa”, poema com que abre a 2ª. parte de seu volume de versos, feita exclusivamente de sonetos. Fugindo ao comum, faz-se todo ele de versos hendecassílabos. A curiosidade, todavia, reside no fato de que, tal a perfeição rítmica dos mesmos, não fosse em prejuízo dessa forma fixa, partidos, bem se poderiam considerar pentassílabos, dos autênticos, pois construídos com dois segmentos melódicos de cinco sílabas cada, invariavelmente. Em “Cantiga do amor inexistente”, conquanto a medida seja nova, há, como sugere a própria epígrafe, um retorno à atmosfera lírica medieval das cantigas de amigo, reafirmado pela subjetividade do tema e pelo emprego do refrão, rarissimamente hoje empregado, se não extinto. Não nos demoremos, contudo, em minúcias relativas à forma. A verdadeira poesia é, sem dúvida, aquela capaz de transmitir emoção. Leiamo-la. Eliette é sensibilidade à flor da pele, é poesia. Das verdadeiras.
De Querências (poesia) e dos livros de crônicas
Retalhos de prosa e Isadorianas, respectivamente:
Retalhos de prosa e Isadorianas, respectivamente:
A prometida
Que importa o nome que me dás agora,
Se em tua solidão chamas por mim?
O mundo ainda não era e eu já vivia.
Essência tua em tua evolução.
Eu vim de muitas noites indormidas.
De muitos arrebóis, de muitas vidas.
Tu me buscaste em todas as mulheres...
Mil faces tive, mil revelações...
Eu sou aquela por quem ris e choras.
A quem chamaste por mil nomes vãos.
Não busques mais. Sou eu a TUA AMADA.
A Tua CANAÃ. A PROMETIDA.
Cantiga do amor inexistente
Que amor foi esse que me fez covarde
e se escondeu como se imundo fosse?
Que amor foi esse que supus eterno
e, num repente, já não mais existe?
— Não foi amor.
Por certo, não foi nada...
Que amor foi esse que me fez descrente
e destruiu toda ilusão que eu tinha?
Que amor foi esse que supus sincero
e só de falsidades se mantinha?
— Não foi amor.
Por certo, não foi nada...
Que amor foi esse feito de mentiras,
de juras falsas, de promessas vãs?
Que amor foi esse que só trouxe mágoas
e nem sequer saudades nos deixou?
— Não foi amor.
Por certo não foi nada...
Ostracismo
Não quero lembrar meus mortos
atemporais,
ocasionais.
Que a neblina do tempo,
piedosa,
desça sobre eles
e encubra seus nomes...
pra nunca mais!
Na solidão das noites invernais,
por que lembrar seu canto,
seu riso, seu bailar ao vento,
se me deixaram ficar
ao longo do caminho,
em desalento,
sem aceno, sem adeus,
sem um olhar pra trás...?
Ah, os meus mortos atemporais,
ocasionais...
Tão fundo os enterrei!
Por que sangrar as mãos
a escavar lembranças
dos que não voltam mais...?
Tempo paralelo
Chegaste há pouco. Entanto, muito
antes,
em nosso tempo paralelo, te queria
porque te adivinhava...
no azul lavado das lavadas manhãs,
uma gaivota indecisa escrevia teu nome
e me falava de ti.
E eu te amava...
Chegaste há pouco. Entanto, muito
antes,
eu te buscava nas infinitas distâncias
porque te adivinhava...
E em teus cabelos de prata, a brisa
— dedos meus que te tocavam -
em sussurros dizia
que eu te amava...
Chegaste há pouco. Entanto, muito
antes,
em toda estrela, em cada alvorecer
do nosso tempo paralelo, te queria.
Porque te adivinhava.
Versos
para uma adolescente
A gente cresce.
E a magia das coisas não se perde,
só se esconde - indestrutível tatuagem
nos meandros da memória.
Tão curta a infância!
E mal termina...
Misteriosa, assustadora, inquieta,
nos vem a adolescência!
E a vida nos parece
gloriosa
gostosa
ma-ra-vi-lho-sa!
Bonecas e ursinhos? tolices da criança
que não mais queremos ser.
Agora é o espelho...
A elegância...
A ânsia de viver!
E, de repente,
uma tristeza diferente
que não se sabe por que
nem de onde vem...
A gente cisma,
emburra,
inventa moda...
mas, num instante, sem aviso,
explode em riso.
(de ninguém, nem de quê...)
Adolescência misteriosa,
vaidosa,
prazerosa,
ma-ra-vi-lho-sa!
E a criança que não mais queremos ser?
Em que inatingível instante nos deixou?
Onde ficou?
— Irremovível
sombra de nossas sombras,
conosco para sempre.
... enquanto formos gente!
Pardais
Sei muito bem que são prejudiciais à lavoura e que, com menos de meio século de Brasil, já alcançaram um número superior a toda a raça de sabiás, tico-ticos, bem-te-vis e sanhaços nativos. Verdadeira praga, mas... como são simpáticos na sua sem-vergonhice e como enchem de alegria as árvores “cantantes” da Ponce de Leon!
Gosto de vê-los passeando no cimento, desafiando as pessoas que ficam por ali a ler jornais, a prosear, a esquentar sol, a vadiar, exibindo sua liberdade para os “colegas” aristocratas, mas engaiolados, que passam o fim de semana pendurados à árvores... E, para ouvi-los, deixo-me ficar junto à banca de revistas, fingindo folheá-las, disfarçando, embromando o vendedor.
Não sei de onde vieram nem quando surgiram na terra, mas foi há tanto tempo que estão na Bíblia, citados nos versos sagrados. Sei que se multiplicam assustadoramente, tomando conta de tudo e imagino, como no filme de Hitchcock, o que aconteceria aos humanos se um dia eles se rebelassem contra os cortadores de árvores, contra os estilingues, contra todos os que procuram exterminá-los
E, nesse dia, quero estar bem com eles. Em minha defesa eu lhes direi - em língua de gente ou de passarinho — que sempre os quis bem e que, muitas vezes, deixei sobre o parapeito da minha janela, um punhado de alpiste só para vê-los de perto, encarrapitados, a devorar até o último grãozinho, numa alegria feita de gritinhos, bicadas, revoadas, golpes de asa e recuos.
E que meu querer foi tão grande... tão grande... que os coloquei em meio à minha Gente, numa despretensiosa coluna de jornal.
“Boiboiando”
Patas e cabeças submersas, o boi morto vai sendo levado pelo rio. Apenas o ventre inchado sobressai à flor d’água como uma enorme bola peluda, preta e branca.
Veio de longe e, ao que tudo indica, faz tempo que se afogou. Some por baixo da ponte despertando a curiosidade dos passantes que param e se debruçam no parapeito à espera de sua reaparição do outro lado.
Não faz muito, pelas cheias de março, foram os dois cavalos. Um atrás do outro. Vi-os à distância e deixei-me ficar parada a observá-los enquanto eram arrastados pelo Paraíba, rumo ao mar.
Em tempo de total destempero político e econômico, gastar tempo, papel e tinta com assunto tão desimportante, parece tolice. É que, num repente, dou-me conta de quanto é bom dar uma paradinha em meio à caminhada para deixar aflorar, por alguns minutos, a criança curiosa que ainda sobrevive em mim, apesar dos anos idos, vividos e sofridos.
O velho Paraíba faz parte das lembranças da minha infância e é impossível imaginar-me longe dele, esquecida dele.
Nas cheias, inconsequente, divertia-me a observá-lo, engordecido, a invadir, sem cerimônia, o quintal e o porão da minha antiga casa, inundando a horta, cobrindo as couves de talo, ameaçando subir os degraus que levavam à cozinha.
Pendurada à janela, improvisava anzóis com alfinetes de cabeça dobrados e presos à linha de um carretel. Os lambaris importavam bem menos que a sensação de ver o anzol mergulhar na água barrenta e engastalhar-se nos pedaços de galhos flutuantes...
Com os maiores, ia até a rua da estação assistir o salvamento dos que moravam nos becos transversais, junto ao rio Piraí, cujas águas represadas pelo rio maior, voltavam e cresciam nas casas modestas, fazendo boiar cadeiras e objetos. Ver mulheres e crianças sendo retiradas no colo, a água na cintura dos salvadores inesperados era — que Deus me perdoe! — para os meus olhos infantis, um espetáculo sem igual.
Nas secas, tornava-me íntima do velho rio. Pés descalços, aventurava-me a vadeá-lo, sem medo, para atingir as pedras que emergiam lisas e lavadas, pequenas ilhas petrificadas, onde me sentava, pés chapinhando na água, livre, dona do mundo.
Também o recordo, mau e assassino, carregando gente...
O menino equilibrista do circo, estrela do arame que não pôde livrar-se dos redemoinhos, das tocas submersas...
E a vela acesa na cuia, descendo pela correnteza, girando, girando, em busca dos corpos desaparecidos...
Boi boiando... cavalos boiando... galhos boiando... gente boiando... lembranças... Saudades da infância longínqua...
Que caiam os ministros, que suba a inflação e que os juros disparem. Que o adulto se perca, se desespere, xingue o governo e que se dane! A nossa criança, não. Que continue isenta, ingênua e pura, dentro de nós.
Que permaneça.
... e nos sustente.
E que, pelos seus olhos, ainda possamos ver e sentir a beleza das coisas simples.


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