quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Mergulho na saudade

José Lourenço escritor e poeta [1]

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Para que se possa render justo preito ao homem de ideal que foi, autodidata, apresentador de programa de rádio, colaborador em jornais e mesmo fundador de alguns periódicos de relevância que circularam em Barra Mansa em meados do Século XX, sem esquecer que foi também um dos fundadores do Grêmio Barra-mansense de Letras, é preciso sobretudo que se conheça o artífice da palavra José Lourenço. Por que não poeta, já que o presente volume é quase o conjunto da obra poética que o mesmo depurou ao longo de pelo menos cinquenta anos? — Porque Lourenço é igualmente contista, redator, crítico, cronista. No volume Seleta de poesia e prosa de José Lourenço, composto e editado entre 1993 e 1994, pelo Grêmio Barra-mansense de Letras, em homenagem ao autor de Jardim sombrio, por ocasião dos seus 80 anos, pode-se constatar o que estamos dizendo. Seleção de poesia e alguma prosa, divididas em seções, com comentários de Francisco Nogueira, nela o talento do grande mestre é devidamente reverenciado. Não se pode olvidar aptidão verbal de tal modo abrangente em favor apenas de uma forma, ainda que a preferida. Quem compôs uma peça como “Dois cães e vários homens” é merecedor de sinceros elogios. No que toca à sensibilidade que desperta, é pérola de inegável valor:
O bem e o mal, como forças latentes no homem, podem ser desenvolvidas ou sopitadas à mercê das circunstâncias.
Ainda hoje, uma cena de rua, uma cena aparentemente fútil, deu-me mais uma prova dessa verdade milenar. Ali na avenida, à frente da Igreja Matriz, dois cães enormes ladravam forte junta à parede, protegidos por mais de uma dezena de homens formando um semicírculo.
Alguns daqueles homens riam, enquanto outros açulavam os cães. Imaginando o que estaria acontecendo, abri caminho e pude defrontar-me com o espetáculo que tanto aplaudiam: — num desvão de porta, um gatinho, todo arrepiado, defendia-se como podia dos ataques caninos.
O meu primeiro impulso foi de avançar em direção ao felino acuado, que, sem tirar os olhos dos atacantes, rosnou forte ao contato de minha mão, mas logo amainou, como se percebesse meu intento pacífico. Tanto que me deixou erguê-lo do solo, sem nenhuma resistência.
Tudo isso ocorreu em fração de segundo... Ao voltar-me, porém, para abrir caminho de volta com o bichano nas mãos, encontrei livre a retaguarda, pois os alegres assistentes se dispersavam rapidamente.
Fugiam, envergonhados talvez, como se o meu ato lhes parecesse uma reprimenda.
Muito mais dignos, então, me pareceram os cães... Porque não fugiram. Parados, de olhos fitos em mim e no gato, davam-me a impressão de que, se pudessem falar, teriam pedido desculpas pela covardia.

O conto “Aquilo não era vida...”, “classificado como muito bom, entre mais de mil e duzentos concorrentes, no ‘Concurso do pequeno conto’ realizado em 1939 pela revista carioca Boa Nova, dirigida por Samuel Lima Rocha”, tendo formado a “Comissão Julgadora Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Augusto Meyer e Álvaro Moreira”[2], não menos sugestivo é, uma vez que nos põe diante de uma questão nem sempre abordada pelo comum das gentes com o senso crítico de que verdadeiramente carece:

A noite ia alta. Revolvendo-se na esteira mais uma vez, Rosinha cobriu os pés com a colcha de retalhos. Não conseguia dormir, pensando naquela vida que levava — não, aquilo não podia continuar assim. A princípio tudo fora bem. O Maneco mal deixava o trabalho, corria para casa, para junto da sua “mulherzinha”. Jantavam juntos, alegres, e ainda tinham tempo para dar uma volta por perto da moradia, admirando as plantações. Regressavam com o aparecimento das primeiras estrelas.
Iam então à cozinha, acendiam o fogo, coavam o café, tomavam-no ali mesmo na cozinha, e depois iam deitar-se... Dormiam sempre juntinhos, abraçados, como marido e mulher que muito se estimam.
Agora, porém... Aquilo não era vida!... O Maneco estava outro. Dera para beber e raro era o dia em que não entrava no botequim do “seu” Nando, antes de vir para casa. E nesses dias vinha sempre tarde.
Já não o esperava para jantar, pois ele, se vinha embriagado, não jantava. Só queria dormir... Era chegar e estirar-se na cama, de qualquer jeito: sujo, suado, fedendo a cachaça. E emporcalhava tudo... Era uma lástima!... Por isso ela já não dormia na cama; dormia no chão, naquela esteira, onde ele não ia incomodá-la.
Devia ser bem tarde, talvez mais de meia-noite, e ele ainda não tinha vindo... Nos sábados a bebedeira era maior...
E Rosinha não dormia, pensando sempre: — por que foi ela casar-se com o Maneco? Tantos outros a quiseram: o Quinzinho, o Zé do seu Toniquinho... e o Dito? Carinhoso como nenhum outro... De todos, o Dito sempre lhe fora o mais fiel... Ela é que nunca ligara muito para ele. Em uma noite de festa ele cantara para ela, de improviso, uma cantiga bem bonita:

Rosinha, minha morena,
não me canso de te amar...
Mas de mim tu não tens pena
e eu por ti vivo a penar.

A noite avançava mais e mais. Rosinha suspirou profundamente: — podia ter casado melhor... Não tivera sorte... O Maneco, qual!... Aquele, nunca mais endireitava. Por onde andaria ele àquelas horas? Quase madrugada e ele não aparecia... Não, aquilo não era vida!...
Virou-se na esteira, remexeu-se debaixo da colcha, recobrindo-se: — então ela se casara para passar as noites em claro, jogada numa esteira? Vinham-lhe, às vezes, uns pensamentos doidos: por que estava ela a suportar aquele homem? Pois não era ele quem a estava desprezando? Como se ela nada valesse? Por que viver “jogada fora” naquela casa maldita? Fugir dali para sempre era o remédio, mas para onde iria? Para a casa dos pais, não, porque a fariam voltar...
O luar, magnífico, penetrava no casebre por todas as frestas. De repente, os galos começaram a amiudar o canto na vizinhança. Não tardaria o amanhecer. Em breve o clarão da alvorada viria tingir o verde dos campos com pinceladas de ouro puro.
Naquele momento, distante ainda, uma voz entoando uma canção em voga chegou aos ouvidos de Rosinha. Conhecia bem aquela voz máscula, clara e penetrante. O Dito devia estar voltando de algum baile havido pelos arredores.
E passou pela casa dela, cantando:

Rosinha, minha morena,
não me canso de te amar...
mas de mim tu não tens pena,
e eu por ti vivo a penar.

Dir-se-ia que a alma do caboclo se diluía num choro cantado, acentuando a dolência dos versos que ele repetiu:

Mas de mim tu não tens pena,
e eu por ti vivo a penar.

Rosinha sentiu o coração bater com mais força. Levantou-se resoluta, enfiou o vestido às pressas, arranjou uma trouxa com alguma roupa e uns poucos objetos, saindo em seguida...
... E lá se foi, estrada afora, quase a correr, no encalço do Dito, em busca (quem sabe) de melhor destino.

Observe-se que, embora se posicionando a favor de Rosinha, no sentido de que ela de fato precisava tomar, em relação à sua vida, uma atitude, teve o autor o propósito de não interferir na história manipulando situações e personagens, ajeitando-as para, feliz ou triste que fosse, um final. Ao contrário, despojou o conto de fantasia, não o maquiou, deixando através da protagonista, ao decidir-se, subitamente, sugestionada pelas circunstâncias, sair dali, indo “estrada fora, quase a correr, no encalço de Dito”, a cargo nosso, leitores, a reflexão em torno de um problema que tão bem conhecemos e para o qual nem sempre temos a solução.
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Como editorialista, José Lourenço, não menos meticuloso, refinado, jamais abrirá mão de seus princípios retóricos, estéticos, vindo a ser referência no meio jornalístico de Barra Mansa. O artigo “Democracia de marajás”, tal qual escreveu Francisco Nogueira, também em Seleta de poesia e prosa de José Lourenço: “nos surpreende e convence com uma sólida argumentação”. Ei-lo na íntegra:

Quem quer que faça um confronto honesto e desapaixonado entre os sistemas de governo que existem, há de concluir que nenhum é melhor que a Democracia.
Reconhecem isso até os seus mais ferrenhos adversários, tanto que a usam como disfarce para mascarar os regimes totalitários que defendem.
Regime do Povo, pelo Povo e para o Povo só existe um, que se chama Democracia.
Pelo menos no Brasil, porém, o regime democrático se deteriorou de tal modo que se tornou irreconhecível, fato esse que ocorre não porque a democracia seja um mau sistema.
Dois fatores concorrem para essa deterioração: de um lado o despreparo do povo e de outro, os aproveitadores do povo despreparado. Prova disso está na atual Carta Magna, criada com o objetivo de implantar a Democracia em nosso país, mas que acabará tornando-o ingovernável.
Constituintes representantes das esquerdas, apesar do numero insignificante, impuseram-se aos da direita e do centro, os quais aceitaram algumas liberalidades excessivas em troca da conservação de seus privilégios, privilégios esses incompatíveis com a verdadeira Democracia.
Sabedores todos de que, economicamente, o país se encontra à beira do caos, nada fizeram visando à redução dos gastos públicos.
Ao contrário, criaram-se novos cargos, novos privilégios, além de dificultar-se a produção e até o acesso das mulheres ao trabalho.
Claro que tudo isso favorece os inimigos da Democracia, que hoje estão como queriam, porque, para eles, QUANTO PIOR, MELHOR,
Às vésperas de eleições municipais, a falta de preparo de nossa gente para a Democracia se evidencia em todos os partidos, pois não têm sequer o cuidado de selecionar os candidatos.
Cidadãos que podem até ser muito dignos, mas que mal assinam seus nomes, candidatam-se a fazer leis para o município, quando alguns até possuidores de curso superior desconhecem as atribuições de um vereador.
Tanto assim é que não são poucos os que confundem Constituinte com Constituição, enquanto outros pensam que foram os vereadores que elaboraram a Lei Orgânica das Municipalidades, o que só deve acontecer agora, como prevê a nova Constituição da República.
A Democracia é, realmente, o melhor regime, porque é regime do povo, mas é preciso entender que se o povo escolhe mal os seus representantes, sempre haveremos de ter “marajás” vivendo à custa do povo...
E isso não é Democracia...

Finalmente, referir-se ao escritor é também referir-se ao “mestre do idioma”, assim chamado pelos amigos e admiradores, pelo divulgador que era, na imprensa local, de inúmeras questões relacionadas à língua portuguesa, que tão louvavelmente cultuava, de maneira que chegou a preparar mesmo um livro, intitulado Mestres também erram, no qual examina, de grandes editoras, publicações didáticas com deslizes de professores e gramáticos renomados, como bem atesta o fragmento a seguir, dele extraído:

 Gozando de alto e justo conceito como romancista e crítico literário, Assis Brasil é também jornalista, contista e ensaísta de valor. Incansável trabalhador intelectual, tem passado por numerosas redações de jornais e revistas e publicado dezenas de livros, vários deles premiados.
Formado em Jornalismo e tendo lecionado Técnica de Jornal em 1968, publicou em 1978 um guia denominado Redação e criação, “um livro dirigido, em primeiro lugar, para os que vão disputar uma vaga nas universidades”.
Isso está em uma das orelhas do livro. Na outra, opiniões de quatro personalidades que tiveram acesso às provas da obra, destacando-se a do notável jurista Segadas Viana, que declara ser o livro “o melhor, no gênero, que conheço”, enquanto o professor universitário Venceslau dos Santos declara que Redação e criação — suprirá com vantagem os manuais existentes. Ambos exageram, como se vai ver.
A julgar por algumas falhas de fácil percepção, o livro deve ter sido elaborado apressadamente. Já na “introdução” diz o autor: “Escrever é uma tarefa, também é um trabalho”. Ora, que é “tarefa” senão “trabalho”?
Na página seguinte (9), lembrando-se de que costumava fazer acrósticos para as namoradas, diz ser o acróstico “um tipo de poesia em que cada verso começa com a LETRA INICIAL do nome da pessoa”. Se assim fosse , todos os versos começariam com a mesma letra, mas o certo é que cada verso começa com uma das letras que formam o nome da pessoa, em sentido vertical.
Na página 10, falando do plural de “anão”, diz: “E escreveu com nova redação: Mas eu gostei mesmo foi dos dois anãos”.
No caso, não se trata de “nova redação”, porque a frase é a mesma, mudando-se apenas a forma do plural da palavra “anão”.
Na mesma página 10, escreve: “Algumas regrinhas gramaticais básicas para você poder decorar... mas não precisa se preocupar tanto com isso”.
Nem ele se preocupa, pois a seguir transgride conhecidíssima regra de concordância dizendo: “O aprendizado intuitivo e lógico ACABARÃO se unindo no ato mesmo de escrever”.

Assim, feitas tais considerações acerca do artista, tornemos ao homem de ideal, aquele mesmo que, em dado momento, juntamente com Francisco Nogueira, J. M. do Lago Leal, Eliette Ferreira, Matilde Diniz Lacerda, Jane Malek, entre outros, formariam um grupo de verdadeiros estetas, capazes de, literalmente, suar pelos seus objetivos, então resumidos no desejo de criação de um grêmio que os abrigasse e atendesse às suas expectativas. Foi quando se deu a fundação do Grêmio Barra-mansense de Letras. Isso num tempo em que, positivamente, havia aspirações culturais nesta então pacata Barra Mansa, a um tempo histórica e industrializada, que recebia (o que em verdade ainda ocorre) quase que diariamente novos moradores, vindos de Minas, sobretudo de Minas — Bom Jardim, Andrelândia, Arantina... — e de cidades adjacentes, atrás de trabalho e melhores condições de vida; uma Barra Mansa de novos prédios e velhas pontes sobre o Paraíba, tudo tão lírico aos nossos olhos moços. (Ressalte-se já haverem sido, a essa altura, dados a lume os livros Canteiro de saudades, Cantigas que o vento leva e este Jardim sombrio, ora na sua 3ª edição, celebrando o centenário do escritor.)
Tornemos, através da adaptação que segue do resumo biográfico constante do livro Seleta de poesia e prosa de José Lourenço, já aqui mencionado, ao homem de ideal, sonhos e ideal, José Lourenço, reverenciando-o com a sua própria história: “Natural de Floriano, distrito de Barra Mansa, nascido em 11 de junho de 1913, José Lourenço trabalhou desde muito cedo como prático de farmácia. Autodidata, possuía os certificados de 1º. e 2º. Graus (Fundamental e Médio). Ainda ali, foi redator do jornal O Florianense, entre 1933 e 1934. Em 1936 se mudaria para a sede do Município, permanecendo em seu ofício de prático manipulador e tornando-se colaborador nos jornais A Semana e Evolução. Participou da fundação dos periódicos Crítica, A Voz do Povo, Projeção, O Sul Fluminense, O Líder e Gazeta de Barra Mansa, sendo diretor responsável destes dois últimos. Trabalhou cerca de vinte e cinco anos na Rádio Sul Fluminense, como redator, revisor, produtor e apresentador de programas, dentre eles: “Bom dia, colegial” e “Parece mentira, mas é verdade”. Foi coproprietário e professor do Externato Coração de Jesus, e também professor do Curso Fundamental do SENAC. Em Volta Redonda trabalhou por sete anos como chefe do setor de redação da Assessoria de Divulgação, não se afastando, porém, de outras atividades em Barra Mansa, onde continuou residindo. Foi encarregado do Expediente da Assessoria Comercial de Barra Mansa, Secretário Geral do Conselho Municipal de Cultura e integrante do MOBEC — Movimento Barra-mansense de Expansão Cultural, fundado em 1974. Colecionador de numerosos troféus e diplomas conquistados em concursos literários e jogos florais, em 1987 foi agraciado pelo então prefeito de Barra Mansa, Luiz Amaral, com a Medalha de Mérito Barão de Aiuruoca. Falece em Barra Mansa, em 1995, aos oitenta e dois anos de idade.”
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Melhor homenagem para José Lourenço, entretanto, não será outra que prestigiá-lo como poeta. E poeta daqueles remanescentes da geração de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Vicente de Carvalho, a qual de fato cultuou, até o fim lhe sendo fiel, isto é, aos cânones de um Parnasianismo que, a par de tantas inovações, e manifestos, e de, ao ver do escritor, mesmo, desmandos, subsistiu. E que subsiste até hoje, bastando lembrar que sonetos de rimas perfeitas e ricas, com discurso claro e fundo filosófico, ainda são concebidos por vates de norte a sul do país. Bastando lembrar que, conquanto mais descritivo e politizado, existe um José Chagas, e, mais complexo, um Paulo Bomfim. E que dizer de Gilberto Mendonça Teles, quando de sua estreia? E assim por diante.
Melhor homenagem para José Lourenço não será outra que reverenciar o gênero literário a que o escritor mais se entregou, divulgando-o com paixão, principalmente em jornais e coletâneas: poesia.
Concentremo-nos agora na figura ímpar do poeta José Lourenço, o que corresponde a dizer — do poeta dos versos medidos, dos poemas de feição clássica, como os seus conhecidíssimos sonetos (sobre os quais mais adiante discorreremos um pouco, ainda que despretensiosamente), dos poemas de sabor popular, em que o falar característico do sertanejo está oportunamente inserido, e sobretudo daquele poema sintético que vem encantando de umas décadas para cá o Brasil, a quadra ou trova, de que foi grande realizador.
Isso mesmo, José Lourenço foi o poeta dos versos medidos, e rigorosamente medidos. Para quem a poesia era música, atento ao ritmo, compôs versos de métrica variada, bastando que citemos seus octossílabos, como em “Canção da minha espera”, os quais, feitos, pode se sentir, com muita naturalidade, têm acento tônico na 4ª. e 8ª sílabas, invariavelmente. “Integração”, constante da página anterior, apresenta versos polimétricos, que tão bem casam entre si, como se podem constatar o 3º. e 4º. da 1ª. estrofe, um dodecassílabo, outro decassílabo, respectivamente:
Porque de nada valeria se ficasses
presente o corpo e o espírito distante.

A forma sincopada dos poemas “Alma sertaneja” e “A viola do caboclo” remete-nos de certo modo ao cordel. É de se crer que o vate muito tenha admirado essa forma popular, arraigada em nossa poesia desde a década de 30 do século XIX. Forma popular a cuja liberdade interna de sílabas tônicas soma-se o linguajar sertanejo, tal modelo de poesia constituirá, em seu livro, uma das partes em que se dividiu, cujo título é homônimo ao da primeira peça das duas a que acabamos de nos referir: “Alma sertaneja”.
Capítulo seguramente especial no volume Jardim sombrio serão os versos de doze sílabas poéticas, os dodecassílabos, também denominados alexandrinos, utilizados de forma magnífica em sonetos como  “Previsão”, “Tesouro recôndito”, “A natureza e o gênio” e “O milagre dos lírios”. Considerado verso pesado e desarmonioso, o alexandrino, em tais sonetos, vêm mais uma vez confirmar a habilidade do poeta.
Foi, aliás, nesse gênero poético — soneto — que José Lourenço mais se destacou. Além de com essas maravilhas de doze pés indicadas acima, encanta-nos o poeta, ainda hoje, com seus decassílabos apaixonados, posto que já não nos sejam, como os alexandrinos, novidades. Que dizer de “Romance tranquilo”, ou de “História de um amor”?:

Humilde vaga-lume, pequenino,
que voava à noite, a iluminar o prado,
perscrutando o remoto céu divino
que se mostrava todo constelado,

de uma estrela ante o brilho peregrino
sentiu-se de tal modo deslumbrado
que, ébrio de luz, cego de amor, sem tino,
ei-lo que parte em busca do astro amado...

E hoje talvez procure a estrela ainda,
no vasto azul, pela amplidão infinda,
pois nunca mais no prado apareceu...

A estrela esplendorosa e inatingida
da minha história és tu, minha querida,
e o infeliz vaga-lume, amor, sou eu!...

É o soneto um poema de forma fixa, podendo apresentar-se, quanto à distribuição de seus versos, de três maneiras: com dois quartetos e dois tercetos — chamado italiano ou petrarquiano; com três quartetos e um dístico — inglês ou shakespeariano, e o monostrófico — ou seja, feito de uma única estrofe de 14 versos. Comumente rimado, há, contudo, aquele com versos brancos, geralmente decassílabos. A criação do soneto é atribuída a Jacopo da Lentini, poeta siciliano e imperial de Frederico II. Era, o soneto, uma espécie de letra escrita para música. Coube a Petrarca aperfeiçoar-lhe a estrutura e difundi-lo por toda a Europa, com seu II Canzoniere, volume de poesias sentimentais onde apenas de peças do gênero se somam 317, muitas delas dedicadas a Laura de Novaes, por quem nutria Petrarca um amor platônico. E foi justamente o modelo petrarquiano que mais se difundiu no Brasil desde os árcades aos parnasianos e simbolistas, bem como aos remanescentes destes. E também petrarquiano foi o soneto cultivado por José Lourenço, esse o soneto de José Lourenço, soneto cujo mérito foi ter ficado fiel ao esquema de dois quartetos e dois tercetos, com rimas alternadas ou interpoladas, a que se junta a temática do amor, da saudade, etc. Por que digo mérito? Porque muito se tem buscado reinventar o soneto, após seu apogeu, no Parnasianismo. Mesmo na rigorosa escola reproduziram-no (certo que uma ou outra peça) com as estrofes invertidas, isto é, sobrepondo os tercetos aos quartetos. Coisa que — pelo mau gosto — não vingou. Depois, na escola que se seguiria, tentaram de todo bani-lo. Sobreviveu. Ainda no segundo momento do Modernismo, Augusto Frederico Schmidt, que o cultivou tão abundantemente, dividiu-o em basicamente dois tipos, o de versos brancos, mas rigorosamente medidos, aliás, muito bom, e o de versos livres ou, no mínimo, metrificados desleixadamente, que, felizmente, não foi imitado. Grandes nomes da poesia, entretanto, cultivariam o soneto, a partir de então, de maneira arbitrária, descaracterizando-o de tal modo que, não se escrevendo mais o de feição clássica, sequer poderíamos chamá-lo — o soneto — de poema de forma fixa. José Lourenço, pelo que nos deixou, em quantidade e qualidade no gênero, é merecedor dos mais sinceros elogios. A ele, pois, todo o nosso respeito e apreço!
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Também de forma fixa e, com gosto, realizada pelo poeta barra-mansense, a trova, cantiga ou quadra, composição poética constituída de quatro versos heptassílabos, cujo esquema de rimas é, preferencialmente, ABAB, tão divulgada pela União Brasileira de Trovadores — UBT, não poderia deixar de ter, nesta introdução à coletânea Jardim sombrio, uma abordagem, ainda que mínima, uma vez que, à época em que Lourenço ainda aspirava a tão somente publicar seus sonetos e poemas em periódicos, já convivia com o modelo, recolhido, por exemplo, em 1919, por Afrânio Peixoto, em Trovas populares brasileiras. E, certamente, tendo lido Meu coração em cantigas, de Nilo Aparecida Pinto, ou Noite cheia de estrelas, de Adelmar Tavares; mais tarde, por fim, vindo mesmo a se dedicar à realização de Decálogo romântico e Líricas, humorísticas e filosóficas, enfeixados no opúsculo Cantigas que o vento leva. A quadra — é interessante que se diga — de caráter popular, dispensando, por isso mesmo, tecnicismo, não prescinde, todavia, de algum artifício. Daí considerarmos as palavras de Adelmar, na trova a seguir transcrita:

Nem sempre com quatro versos
setissílabos, a gente
consegue fazer a trova; 
faz quatro versos, somente.

Condição para que se possa criar uma que simples quadrinha, é que no mínimo, tenha alma. A de José Lourenço tinha.
Quanto à temática, a trova aborda, comumente, os sentimentos — a tristeza, a saudade, o amor; todavia, haverá também aquela quadra filosófica, que encerra, como a fábula, uma verdade que nos leve a refletir. Quantas destas não compôs Lilinha Fernandes, Luís Otávio! Quantas não compôs Lourenço, basta se recite:

Os olhos, janelas d’alma,
nem tudo nos deixam ver:
por vezes refletem calma,
e há dores fundas no ser.

José Lourenço foi o poeta das composições rigidamente metrificadas, dos poemas de forma fixa populares, ou seja, dos sonetos e quadras, foi o poeta atento ao falar espontâneo do sertanejo e sobretudo poeta do amor e da saudade, temas que abordou mesmo exaustivamente, exaustivamente, mas que o fez atendendo, antes de tudo, à sua voz interior.
Esta 3ª. edição de Jardim sombrio, revista e ampliada, é uma homenagem póstuma ao homem de letras, grande poeta e cidadão barra-mansense José Lourenço, por ocasião de seu centenário — 1913/2013. Guardemo-la com carinho.  




[1] Ensaio feito especialmente para a 3ª. edição de Jardim sombrio, em homenagem ao centenário do escritor.

[2] Nota de Francisco Nogueira.

[1] Ensaio feito especialmente para a 3ª. edição de Jardim sombrio, em homenagem ao centenário do escritor.
[2] Nota de Francisco Nogueira.

   
Do livro Jardim sombrio:

   Suave obsessão

Há tanto tempo não te vejo e ainda
o meu amor por ti forte viceja...
Distante, embora, o coração te almeja,
Nesta grande paixão que se não finda.

Não passa um dia só sem que eu te veja
em sonhos, como sempre, meiga e linda...
E o meu amor não morre, não fraqueja,
nem cansa de esperar por tua vinda.

Descubro no ar, sutil, o teu perfume
e, suave, a tua voz, como um queixume,
ouço-a num tênue sussurrar de prece...

Estás tão longe... E o tempo vai passando...
Devo esquecer... Vejo, porém, que é quando
mais se quer esquecer que não se esquece!...

Iracema

Sonho-te à sesta, à sombra da ramagem
ou vogando à ventura, em tosca “Igara”...
E o meu olhar se prende à tua imagem
refletida no espelho de água clara.

Não manejas a flecha do selvagem,
como outrora, na selva, a manejara,
oculta pelo verde da folhagem,
outra Iracema, a virgem tabajara.

Nova Iracema, a carne não nos feres,
mas a alma, onde essas flechas que desferes
se cravam nos mais íntimos refolhos.

Trazes mel e veneno no sorriso,
oferecendo o inferno e o paraíso
no estranho sortilégio dos teus olhos.
  
   Previsão

Foi meu amor por ti um vendaval medonho
que passou por minh’lma, avassalando tudo,
e me fez ver, em pouco, apavorado e mudo,
desfolhadas, ao léu, as rosas do meu sonho.

Hoje, quando nos teus meus olhos tristes ponho,
a minha angústia em vão procuro ver se iludo...
Se busco distração no trabalho e no estudo,
manifesta-se a dor nos versos que componho.

Quando eu tiver, um dia, os meus cabelos brancos,
a caminho do Fim, curvado, andando aos trancos,
como quem leva um fardo enorme sobre os ombros,

então, como um troféu, eu mostrarei, triunfante,
em singular contraste à solidão reinante,
a Saudade, imortal, florindo entre os escombros!

Tesouro recôndito

Não sei se voltarás, com tuas mãos de fada,
fazendo reflorir o saibro dos caminhos,
trazendo brilho novo ao verde da ramada
e cânticos de amor ao derredor dos ninhos.

Não sei se voltarás... Quem sabe se, velhinhos,
havemos de nos ver trilhando a mesma estrada?
Talvez juntos, depois de tantos descaminhos,
tenhamos de alcançar o termo da jornada...

Não sei se voltarás, hei de aguardar, no entanto,
comigo, avaramente, este amor puro e santo,
que é meu único bem, recôndito tesouro.

Não sei se voltarás... mas, no recolhimento
desta vida sem luz, vejo a todo momento
o teu vulto de fada, emoldurado em ouro.

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