I / Sonetos "para nós"
Pedro Viana Filho estreou em 1975, em Volta Redonda, despretensiosamente, com Minhas trovas mais queridas, tendo recebido apoio da Imprensa local e dos amigos de ideal, como José Lourenço e Francisco Nogueira. É curioso notar que, embora de trovas, aparecem, como parte final do livro, alguns sonetilhos (gênero que o poeta jamais abandonaria), fazendo crer a crítica tratar-se de uma necessidade sua de expandir-se, no sentido de superar as limitações da trova. Verdade é que, no ano seguinte, surpreende com Sonetos para você, coletânea de sonetos com métrica variada, à qual insere, além de inéditos, os sonetilhos já vindos a lume, em Minhas trovas mais queridas. Mas o que chama a atenção para o volume é, de fato, o lirismo puro dos decassílabos, alguns dos quais se tornariam antológicos, como o dedicado à poetisa Jane Maleck, intitulado “Musa-mulher”. O nome de Vinícius de Moraes é sempre associado ao “Soneto de fidelidade”, tamanha a popularidade alcançada pelo poema. O nome Gonçalves Dias está diretamente ligado à “Canção do exílio”, tal o prestígio desta. Em nosso meio, o nome de Pedro Viana está relacionado, pela mesma razão, ao soneto “Musa-mulher”. Não há, entre nós, realmente quem não lhe saiba de cor ao menos o primeiro verso: “Musa-mulher, imperecível gema”. Poema notável do nosso trovador, recitado tantas vezes em eventos e, tantas vezes, reimpresso em jornais, folhetins, antologias. Na mesma coletânea de sonetos, contudo, há belíssimas peças que não deixam dúvida sobre o cultor do gênero que é Pedro Viana; peças que em nada ao mais celebrado trabalho do poeta ficam devendo, como, por exemplo, “A natureza”:
Dos
ínvios cerros espargindo olores,
um
vento forte a debruçar ramagens,
e
dos arbustos a arrancar folhagens,
transforma
a relva em estendal de flores!
E
num dealbar sublime de esplendores,
o
sol fulgente, a decorar paisagens,
no
campo agreste projetando imagens,
é
um mar de luz de divinais fulgores!
Cortando
a encosta da altaneira serra,
corre
um regato fecundando a terra
e
se transforma em gigantesco véu.
Este
espetáculo de real beleza
é
o cenário gentil que a natureza
repete
sempre, como um dom do céu!
ou
“Crepúsculo”:
Vivi
o amor; a ânsia do amor: a vida
primaveril
da bela juventude;
o
sol ardia n'alma embevecida,
com
toda a força, em sua plenitude!
Vivi
esta ilusão desvanecida
da vida, numa efêmera quietude!
Hoje,
saudosa da estação florida,
minh'alma
ascende em vã solicitude!
O
dia passa e dá lugar à tarde;
o
sol declina, já sem luz, não arde;
a
noite chega, se despede o dia!
E
quando o sol descamba no poente,
sinto
saudade de um amor ausente,
e
sinto n'alma como a noite é fria!
ou, ainda, a que, me parece, é como que um poema de encerramento de um livro: “Paz e amor”, devido à força de seu último verso, ao seu incontestável fecho de ouro:
Em vez de guerra, vou fazer amor.
Em vez de ódio, te darei carinho.
Por entre espinhos colherás a flor;
Num mar de beijas vou fazer meu ninho.
Se o mal vier, suportarei, a dor,
pois nesta vida não serei sozinho.
Mesmo no frio eu sentirei calor:
Estás comigo em todo o meu
caminho.
E vou seguindo pela estrada afora,
ganhando amigos ao romper da
aurora,
cantando amor enquanto existe
vida!
Quando atingir o termo da jornada,
espero um beijo da mulher amada
e muitas flores como despedida!
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II / O poeta
À maneira do poeta Belmiro Braga,
também Pedro Viana, muito espontaneamente, dedicava versos a amigos e parentes,
admiradoras e amadas, fazendo destes não raras vezes o tema de seus poemas.
Sobrinhos, netos não ficavam de fora. Fosse por ocasião de um aniversário,
fosse por um lance de olhar, fosse um motivo a nosso ver banal, e estava o
poeta a improvisar. Ainda como o vate mineiro, Pedro Viana Filho manifestava,
sobretudo nas estrofes de circunstância, humor e fina ironia. Sem acanhamento,
gostava de falar de poesia e apresentar seus trabalhos mesmo àqueles para quem
verso e prosa — a arte da palavra de um modo geral — são coisa sem atrativo,
quando não enfadonha, o que o tornava de certo modo conhecido mesmo em
ambientes menos acolhedores, de pessoas evidentemente mais rudes, onde, se
sabe, não é costume comentar-se uma máxima mudada em quadra, um soneto alexandrino
ou o que quer que seja que diga respeito a coisas do gênero. Atento às suas aptidões e seguro da escolha feita, ao
longo de sua existência teve participação frequente em concursos de
poesia, trovas, anedotas, tornando-se consequentemente um colecionador de
medalhas, certificados e menções honrosas, aos quais sempre se referiu com
orgulho, ressaltando, inclusive, que considerava sua maior vitória ter sido
agraciado, em Brasília, no ano de 2001, com a Láurea Internacional de
Literatura, por intermédio da Ordem Internacional das Ciências, das Artes, das
Letras e da Cultura — OICC.
Não de outra forma, mas, assim,
Pedro Viana cumpria plenamente seu papel de mensageiro da Musa
Posteriormente a Sonetos para você, o poeta publicaria
também, como provas de seu talento e criatividade, os livros: As maravilhosas parábolas de Jesus, O mais seleto humor evangélico, I, II,
III e IV, A carta do descobrimento,
entre outros.
Musa-mulher
Para Jane Maleck
Musa-mulher, imperecível gema
que se levanta da flamante pira
para compor os versos de um poema
pelos acordes divinais da lira.
Musa-mulher o mais perfeito esquema
que o Criador traçou e se fez mira
aos olhos do poeta, e tu és o tema
do sonho lindo a que minh'alma aspira!
Musa-mulher, tu foste, enfim criada
para amar, ser amada e desejada,
e ser do vate a musa bem-querida!
Tens a teus pés todo este mundo imenso
e tens no peito ardente, todo o incenso
da mais suave inspiração da vida!
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