Para todo gosto [*]
Livros de versos há que nos deleitam e nos prendem da primeira à última página, que, sendo breves, relemos repetidas vezes, e que, sendo demorados, nos retêm a cada instante livre do dia, passando a leitura de domingo, por puro entretenimento, puro prazer. Cardápio poético é um desses livros. Constituído de três partes, uma reeditada e duas inéditas, num total de 227 poemas, o presente volume confirma a aptidão poética do colunista, editor e acadêmico Jean Carlos Gomes, cuja determinação, perseverança e entusiasmo reconhecemos e aplaudimos. Ao longo de suas trezentas e poucas páginas, o que temos é poesia que nos instiga, a um tempo tempestuosa e bonançosa, simples e rica, livre e perpassada de música, presente em figuras de construção e pensamento, como a anáfora e a antítese, em “Onde está a poesia...!?”:
Em cada passo dado?
Em cada ato praticado?
Em cada fato acontecido?
Em cada dia que vivemos?
Em cada tarde, etc.
Em cada noite, etc.
... ou ainda em “Poemas...?”:
Tão claros,
Tão tardios,
Tão escuros...
como, também, descritiva, como não o é a poesia de ninguém mais em nosso meio:
Variações de um habitat
Ruas estreitas,
Quase sem calçadas,
Bueiros entupidos,
Servidões, vielas, becos...
Morros com matagais,
Plantas de várias espécies,
Vista panorâmica,
Casas edificadas nas alturas,
Lugar um pouco longínquo,
De várias encruzilhadas...
De onde vêm e para onde
Nos levam esses caminhos
Constantemente estreitos?
__________________
Em sua primeira parte, podemos reler aqueles versos a que se referiu Maria José Bulhões Maldonado, em seu belíssimo prefácio à edição de 2008, como sendo dos em que se veem “digitais do povo, em suas lutas, seus anseios, seu apelo humano” e em que o poeta “cumpre seu destino ao retratar seu tempo”:
Oração ao andarilho
Andarilho, andarilho
Que andas perdido pelas ruas
Procurando um abrigo,
Alimento,
Ajuda...
Será que realmente tu és um andarilho
Ou és um anjo enviado por Deus pra nos testar...?!
Capítulo em que nos deparamos com um eu lírico atento a tudo ao redor, aos caminhos e descaminhos de todos nós, ao mundo em irrefreável avanço para quem sabe um abismo; capítulo de indagações, contudo, tênues e singelas, à Casimiro; das lembranças da infância e de uma adolescência visitada pela poesia (mais do que isso: a que a poesia se imporia); e, ainda, das experiências com gêneros como o acróstico, a canção, o genetlíaco, etc.
Já na segunda parte, não só se desdobram os questionamentos do poeta, como este, para nossa surpresa, se mostra mais confessional, mais intimista, como o revelam os próprios títulos dos poemas (“Confissão”, “Junto a ti”, “Eu te amo”, etc.). É de crer, pelas datas em que foram escritos, as quais coincidem, de alguma forma, com os da primeira parte do volume, que Jean Carlos, ao selecionar os poemas da 1ª. edição deste Cardápio, tenha se retraído um pouco e prestigiado o que não denunciasse tanto o que lhe ia então (e vai) no recôndito do ser, e que só agora, diante da possibilidade de reedição do livro, nos traz de fato.
Antes da partida
Quero tentar cessar:
As fortes correntezas das chuvas
Que molham meu corpo
E passam por debaixo dos meus pés...
O sol fortíssimo que desgasta tudo
E queima a minha tez...
As lágrimas que descem da minha face
Antes de qualquer chegada e despedida,
A dura e triste solidão...
As flores que resistem os espinhos,
Antes que elas murchem...
As banalidades dessa terra,
Antes que ela me cubra...
A imensa vontade de ter você,
Porque senão você pode passar,
Eu ser cessado antes do tempo...!
... diz o poeta. Mas também é a parte em que a metalinguística — peculiaridade na poesia de Jean, uma vez que a tem trabalhado em inúmeras publicações, como em coletâneas de lá de sua juventude, dos grêmios Barra-mansense de Letras e de Autores Novos, este, de Volta Redonda, sua cidade, e, ainda, das antologias que ele mesmo organizou recentemente e de que foi partícipe, como Vozes de Aço I e II — vem a se adensar, acabando por desaguar-se na terceira parte, dos “poemas a gosto”; de modo que, na delicada e espontânea poesia, dentre tantas desse segundo momento do livro, intitulada “Canção livre”, ele manifesta:
A minha canção é sem preço,
Leve, solta...
É composta pelos acasos,
Ao som do vento,
Ela vem e volta...
Querendo alcançar o firmamento!
Insiste, afinal, na terceira e última parte da obra, na (como nos referimos antes) metalinguística, chegando mesmo à exaustão. É o momento, no livro, em que o poeta realmente explicita a sua paixão pelo fazer poético e sua entrega total e sem concessões a ela. A essa por que viveu um Manuel Bandeira, ou um Ribeiro Couto. Composto de vinte e nove textos sem títulos e enumerados com algarismos romanos, remete-nos o referido capítulo aos versos desses poetas torrenciais como Fernando Pessoa, em O guardador de rebanhos, Augusto Frederico Schmidt, de Canto do brasileiro a Ciclo da Moura, entre outros, que dispensam os títulos aos seus textos, tantos e tão abundantes estes são. E há, aí, um pormenor: a possibilidade de interpretarmos tais poemas como partes de um todo, isto é, de um único poema.
Jean Carlos Gomes é o cantor de sua cidade, do bairro entre colinas onde mora, das alamedas em flor e, a um tempo, das casas humílimas e sua gente, à mercê da sorte ingrata; é o poeta que se pergunta, se questiona e à existência desses milhares de anônimos que cumprem seriamente seu dever e tentam defender como podem ao que abraçam. É o poeta dos versos livres e espontâneos, isentos de quaisquer artifícios, despojados do que lhe parece supérfluo, os quais têm e muito a nos dizer, e dizem... E é exatamente isso que faz da poesia essa coisa maravilhosa, a cujos perigos, riscos e armadilhas nos sujeitamos. Essa possibilidade de sermos unos, ainda que comunguemos com todos os que lemos e admiramos; de acertarmos, quando árduo o labor poético e algo fatigante; de revelarmo-nos, despirmo-nos, por mais que fujamos ou finjamos fugir a isso.
Valho-me, para encerrar-me, da metáfora que nossa saudosa poetisa portuguesa criou para saudar o livro solo de estreia de Jean Carlos, agora em segunda edição, revista e riquissimamente ampliada: “é com fermento de sonho que o singular poeta escreveu seu Cardápio poético.”
Do livro Cardápio poético:
Brevidade
É
breve o existir, é breve...
É
tão breve que nem sentimos...
É breve o pensar,
O
agir corretamente,
O
movimentar,
O
movimentar-se...
O realizar algum fato,
O
marcar,
Marca-se
merecidamente,
O
conquistar...
É breve, muito breve,
O
ficar, o conhecer,
O
abraçar, o beijar,
O
deixar o seu registro
De
algum jeito,
O
partir...
É bastante breve
O
perder alguma coisa,
Alguma
causa,
O
passar despercebido,
Enfim,
tudo em si é breve,
Breve
demais...
Pode ter certeza, a nossa vida
É
o maior e mais perfeito exemplo
De
brevidade, pois é bem curta,
Objetiva...
Certa, cheia de acentuações,
Determinações
e pontuações
Pra
serem corrigidas
Por
nós...
(Seus
autores e personagens)!
Liberdade...!?
Todos
os seres são livres,
Livres...?
No
meio das inúmeras
Algemas,
cadeias existentes
Nos
logradouros,
Nas
alamedas...?
A alma liberta-se...?
Na
ausência,
Na
angústia,
Na
forca,
Na
guilhotina
Do
corpo...?
O que é ser livre,
Livre
totalmente?
Será
que é estar emudecido
Na
Eternidade...?
Moldura
Nessa
moldura coloco:
O
seu,
O
nosso retrato,
Montado,
Invertido,
Atingido
por estilhaços,
Imêmore,
Encanecido,
Rasgado
pelo descuido,
Manchado,
Cortado
pelas traças,
Deixado
na janela,
Em
cima da cômoda,
Jogado
no chão,
Escondido
na carteira,
Na
gaveta, guardado,
Arquivado
pelo tempo...
A capa daquele livro
Que
lancei ontem,
Antes
de ontem,
Outrora...
Nessa moldura tão delineada,
Emolduro
com dificuldade
Todas
as limitações
Que
o Destino e a Vida
Determinaram
e presenciaram
Quando
nós nos amávamos!
Contraste infantil
Crianças
felizes, sorrindo,
Brincando
com brinquedos novos,
Hoje
é Dia das Crianças...
Tem festas, pipocas, algodão-doce,
Cachorro-quente,
refrigerantes,
Atrações,
diversões
Em
diferentes lugares...
Crianças infelizes,
Perambulando
pelas ruas,
Engraxando
sapatos,
Paradas
nos sinais
Pedindo
esmolas,
Vendendo
qualquer coisa...
Andando nos ônibus
Oferecendo
balas,
Doces,
salgados...
Filhas do medo, da violência,
Da
covardia, da exploração,
Da
indiferença social alarmante,
Alastrante...
Morando em favelas,
Debaixo
das pontes,
Dos
viadutos, de abrigos especiais...
Lavando carros no centro da cidade,
Banhando-se
na água do chafariz...
Depois de ganharem
a vida,
Mais
um dia,
Adormecem
(quando adormecem...!),
Choram,
choram por um pedaço de pão,
Perderam
a infância,
O
Direito de Serem Crianças...
Será que o tiveram algum dia...?
Será que o tiveram algum dia...?
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