Dos livros Aragem poética (poesia) e Barramanseando (crônicas), respectivamente:
Ideal
“A gente escolhe a estrela mais brilhante
Imediatamente, começa o movimento de pessoas no rumo da Igreja para assistirem à santa missa , ou então de crianças — com seus passinhos miúdos e ligeiros — a caminho da praça ávidas pelas brincadeiras e sorteios que a AMOBS (Associação de Moradores e Amigos do bairro de Saudade) programou para comemorar o “Dia da Criança”.
e sonha alçar-se um dia, àquela luz...”
Lutando em busca do ideal flamante
vai pela vida ao peso de uma cruz...
O futuro murmura sem parar
os mais lindos projetos e canções,
promessas que se quer acreditar
e, afinal, são apenas ilusões.
Pelo caminho, com ânsia tecido,
olhos atentos na trilha do amor,
todos passam sem notar o tempo ido.
Coração batendo angústia e esperança
enche o peito de mel e de travor:
A vida passa e a estrela não se alcança.
Elegia
Partirei...
Porém, meu jardim florido com sua árvore verde
ali estarão.
E o céu azul e as noites de estrelas suceder-se-ão
através dos séculos.
Meus amigos pássaros continuarão a cantar
nas manhãs de sol.
E eu prosseguirei na minha viagem triste, solitária:
sem o meu jardim, sem as minhas noites estreladas,
sem os meus amigos pássaros.
Só. Tremendamente só!
A vida é um círculo
“Há dois legados duráveis que podemos
transmitir a nossos filhos:
um, raízes; outro, asas”
HODDING CARTER
Nasci, cresci e envelheci. Não tão depressa assim, mas foi a ordem seguida. Nasci, enfrentei os mandos da família,; cresci um pouco e passei por vários colégios como aluna interna. Eram mil e uma atividades: estudos, canto orfeônico, pintura, piano, violino,datilografia, bordado, jogos e outras coisas que não valem aqui relembrar... Enfim: minha infância e adolescência foram cumpridas com sucesso. Minha família, à época: as freiras Salesianas, da Providência, e colegas de internato — onze longos anos!
Ingressei-me muito cedo no magistério, lecionando em Barra Mansa durante 45 anos consecutivos. Casei-me aos 22 anos e vivi anos a fio dividindo o meu tempo com a família, dezesseis colégios e mais a SOBEU, atual UBM — Centro Universitário de Barra Mansa, onde lecionei: Literatura Brasileira e Teoria Literária.
Agora, já avó de cinco belos netos e com a vida mais serena (saúde, nem tanto!) resolvi começar vida nova. Não do zero, pois não poderia deixar de lado a minha família, mas pelo menos dar novos rumos à existência. Então a Literatura, a Pintura e a Música estão me dando a renovação esperada.
Estou hoje com 63 anos, maravilhosos e bem vividos. Velha, admito. Porém, ser velho não é cair em sofrimento. Todos chegam lá!...
Como disse Mrs. Thyla Bresslow, em Londres, no inverno de 1998: “Ser velho é ser veloz no que nos permite o raciocínio, o corpo, enfim, a alma. Elegante em tudo, pois já cursamos a escola da vida e muito aprendemos, certamente podemos nos atrever a ensinar; lindo, sim, lindos, pois as rugas têm sua beleza, sua arte de moldar o rosto e dizer, como num grande outdoor — eu sei viver, eu vivo; honesto, pois, se nos foi dada a dádiva de vivermos até aqui é porque fomos honestos, sinceros, conosco mesmos e com os outros, então eis o grande prêmio: a velhice e o círculo.” Sim, dele posso dizer que me servi e sirvo para mostrar que a vida é um círculo, ela não acaba, perpetua-se e isto será presente para os nosso filhos, netos e bisnetos. Estes, espero, também chegarão à terceira idade e desejo que a vivam como eu, sempre alegre e agradecida por este inestimável presente.
Também vocês, barra-mansenses, de hoje e de sempre: amem esta boa terra, lutem por ela e agradeçam sempre pelo maravilhoso dom da vida, pois tudo vale a pena.
Pardais
Da minha janela, vejo uma nesga do céu azul que me faz sentir uma profunda paz.Estou na cidade que eu amo “de paixão” e sou feliz... Vou digitando e o meu computador conta-me uma antiga história lá das Minas Gerais. Percebo, manchando o azul anil do céu, alguns fios elétricos alinhados como cordas de um violão. Uma música suave, vinda dos longes da minha infância nas Alterosas, começa a sussurrar nos meus ouvidos: ... “Tem passarada / Ao alvorecer / Sinfonia de pardais anunciando o anoitecer...” De repente, num passe de mágica, surge um bando barulhento de pardais alinhando-se nos fios como se fossem notas musicais agarradas à sua pauta. Que doçura!
A imaginação corre solta... Vejo-me, num dia qualquer do ano de 1903, quando o diplomata, engenheiro e prefeito Pereira Passos mandou vir de Lisboa milhares de pardais e soltou-os pelas ruas do Rio de Janeiro. Na verdade, nunca se soube o mês e nem o dia, mas só pode ter sido numa manhã convenientemente azul com todas as pompas e bênçãos de São Sebastião, naturalmente coadjuvado por São Francisco de Assis, ou até mesmo no dia do padroeiro, como presente simbólico.
Os pardais, esses pássaros tipicamente urbanos, espalharam-se rapidamente por toda parte, voando aos bandos, com seus chilreios alegres e irreverentes à cata de migalhas.
Chiii!... Estava demorando! As notinhas musicais iniciaram um chinfrinar ensurdecedor, atrapalhando a minha concentração. Não faz mal,Faço uma pausa no meu trabalho e aproveito a balbúrdia para saudá-los: noventa e cinco anos de Brasil, viva os pardais!
Ah! Meu Deus, essas crianças!
Mal o dia dá as caras, o sino a Matriz de Santo Antônio ecoa pela praça e ruas despertando o bairro para mais um dia. É domingo!
Aliás, 12 de outubro é também o dia da Padroeira do Brasil e de forma alguma poderia passar em branco. Em quase todos os bairros a data foi muito bem comemorada. Dois eventos merecem destaque: a festa para as nossas crianças, organizada pela Administração Municipal e a procissão fluvial de N. S. Aparecida, saindo lá do bairro Vila Maria (Meu, Deus, como foi linda, emocionante!).
Porém, um domingo primaveril, de céu azul e sol brilhante não pode se restringir só às rezas e brincadeiras. Prestou-se, igualmente, para os adultos prosearem, esquecendo as agruras da semana, sentirem a sensação de que a felicidade é possível. Por isso, ao redor das barraquinhas coloridas, `a sombra das “espatódias” floridas, viam-se animadas rodinhas de pessoas conversando. Por um dia, deu para esquecermos de que a majestosa praça D. Sebastião Leme, a maior e que já foi a mais bonita da cidade, está há tanto tempo abandonada e semidestruída, coitadinha!...
Contudo, apesar de maltratada, ela é uma criança e pode esperar por dias melhores.
Houve um tempo, quando eu tinha os meus oito anos, que eu também sabia esperar... Agora, não sei esperar mais nada desta nem da outra vida. No entanto, a menina (que insiste em não morrer em mim) apesar de todas as desesperanças, segreda-me baixinho: “Quem sabe?...”
Ah! Meu Deus, essas crianças!
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