Celebração de um encontro de poetas
Poemas de Luiz Otávio Oliani
Encantamento
no balde de juçaras
o homem busca
a água de que precisa
no terreno seco
procura o vento
encontra Deus
disfarçado de sabiá
Anônimo
o poeta na
padaria
procura
inspiração
ninguém o
conhece
ninguém
sabe de seu ofício...
no prédio
onde mora
chamam-no
pelo nome
quando o
sabem
mesmo assim
no
anonimato das ruas
entre broas
de milho
pessoas
papéis
o poema
cresce
como pão
a sair da
fornalha
o fermento
da poesia é a vida
Canção
com poder
encantatório
qual sereia
a
vislumbrar
águas
desconhecidas,
a palavra é
peixe
em mar
revolto
Decifra-me ou...
“É necessário cantar
quando a palavra nos soa
poética”
ROGÉRIO SALGADO
no
cotidiano
o poeta
elimina
significados
distorce o
sentido
dos
vocábulos
corta o
supérfluo
veste a
palavra
de pura
conotação
o peixe
deixa de ser peixe
caminha
pelo ar
voa em
liberdade
o poeta dá
à palavra
o sentido
da ambivalência
Poeta lírico da cidade do Rio de Janeiro, autor dos livros Fora de órbita, Espiral e A eternidade dos dias.
Poemas de Astrid Cabral

Encontro no jardim
Ondulando
o corpo
réptil
sempre
à
frente
rente
ao solo
graças
à oculta
mola
a cobra
ágil
desenhava
seu
caminho
no
verde.
Olhei-a frente a
frente:
sua cabeça
erguida em talo
eu entalada
o colo em sobressalto.
Sensação de asco
me percorrendo
inteira
tamanha a estranheza
de cores e contornos
postos em confronto.
Súbito
a revelação
em luz se acende:
um segredo a nos unir
dá cabo do medo.
A comum sedução pelo
verde
a terra de arcaicos mistérios
colando-se em nossa epiderme
nos enredando em suas redes.
Eu também ser de veneno.
Eu também ser inepto ao vôo.
Ambas inquilinas do mesmo solo
Ambas coincidentes no tempo.
Então eu toco sem nojo
o corpo da exótica irmã.
O encontro desde sempre inscrito
nos desígnios de Aldebarã.
Grades
Assim, embalando a
linda
ilusão da liberdade
foges, corres e te
evades.
Rejeitas o chão dos
montes
que te atrapalha a
passagem.
Queres o longe
horizonte
onde terra e céu se
casem.
As asas do sonho aos
ombros
vais de cidade em
cidade
casa em casa,loja em
loja.
Quebras ferrolhos e portas.
Rompes cadeados e
chaves.
Inútil qualquer
esforço.
Nunca te sentirás
livre.
Vê: por toda parte há
grades.
Transitória
Enquanto
folhas folham
árvores arvoram
e o dia irradia
sigo
figo
no ramo da tarde
Até que a noite
anoiteça
o fruto apodreça
e na terra em fome
tombe
sem alarde
Os búfalos
Em Marajó, os búfalos
pastam à flor da terra
ou nos alagados do
fundo.
Tudo depende das
estações.
Movem-se em pequenas
viagens
em total paz com a
paisagem:
nadam nos fartos rios
do inverno
rolam na parda lama do
estio.
Debaixo das pesadas
patas pisando campos
esmagam cobras sapos
lagartos
na mesma serenidade com
que mastigam
moitas silvestres
vingando
junto a palmeirais de
inajá e babaçú.
Soltos selvagens
sonolentos
na verde imensidão
banhada ao sol
ruminam as horas sem
pressa
donos da eternidade,
imunes ao calendário
o couro escuro em
retalhos de noite.
Alguns, para o espanto
dos viajantes,
não rejeitam o jugo das
carroças
e desfilam sob
volumosas cargas
robustos e tardos
corpos
prestando auxílio a
frágeis homens.
Solidários nas tarefas
vão semeando por
rústicas estradas
o verde estrume prenhe
de sementes.
Símbolos de arcaica
travessia épica
por afro-índicos mares
mostram troféus de
longas agressivas
lanças, luas de duros
chifres.
Nada porém impede-lhes
o servil destino
de acabarem
esquartejados em bifes
couro reduzido a
sandálias.
Adeus
De manhãzinha qualquer
latido me apunhalava.
Era nosso brinquedo
favorito
e foi enterrado no
jardim
com o ritual de praxe:
Velas e rezas, choro e
flor.
Só não teve missa que
nesse tempo era em
latim.
Quando o capim cresceu
regado pelas chuvas
passávamos as mãos nele
dizendo: o pelo mudou
de cor.
Poemas de Antônio Pena
Paraty
Praia do Pontal. Abril farfalha. Garças
são, à beira do canal, meros pontos brancos.
O ar lavado, onde uma borboleta adeja,
é, ao meio-dia, mais azul. No mar,
pequenos barcos
somam-se a uma paisagem de cartão-postal.
Quase nada
Olhas o mundo à tua volta,
e te surpreende,
naquela árvore
florida,
a
sabiá. O zumbido
de algum besouro ou abelha
te comunica
a vida.
Por um instante, te aprazes
com essas coisas pequeninas
(esse,
em si,
quase nada,
não fora o que te remete
ao
mais íntimo
de ti).
Mínima elegia
(E UMA VEZ...)
... uma rua onde essa chuva
que persistente se derrama
formava poças d’água,
e em que à parede das casas
os carros, passando,
salpicavam de lama;
uma casa de assoalho
e azuis janelas,
poéticas, conquanto não
fossem propriamente belas;
um quintal espaçoso; nele,
um filete d’água que passava
e um bambuzal a cuja sombra,
solitário,
um menino brincava
poupado de obrigações,
poupado de toda a dor,
alheio a quaisquer problemas,
e ao tempo,
que, sem que o soubesse,
modificava-lhe as feições
e acrescentava-lhe o amor;
ao tempo,
que, sem que ele visse,
os seus sonhos revolvia
deixando, aos poucos, desejos
onde tão somente havia
o que de tenro encantava;
ao tempo, que,
sem que se notar pudesse,
aos poucos, mais do que a sua
ingenuidade, inocência,
a ele
próprio levava...
Maturidade
Maturidade
Tal como as estações, passam-se os anos,
ligeira, a vida, como as estações,
roubando a nosso ser as ilusões,
não o enchendo, porém, de desenganos.
Antes fazendo sóbrios nossos planos,
sensato o riso e mesmo as emoções;
fazendo ver, à luz, os corações
perdidos de desejos, mas tiranos.
Saibamos rir em meio da tristeza
como um rei, na alegria, não soubera,
sobriamente, sem dizer um ai...
Que um colorido há, de uma beleza
que se renova, finda a primavera,
que apenas dorme, quando a noite cai...
Poeta é aquele que vê
A Marcio Marinho Nogueira
Poeta é aquele que vê
o belo e o feio do mundo;
que capta, com suas antenas,
toda a essência das coisas
e em seus versos a traduz.
Poeta é aquele que sabe
colher com seus dedos longos,
pelas margens dos caminhos,
flores, e ninhos, e salmos.
Poeta é aquele a quem cabe
distribuir os seus dons
e que, à sombra ou ao sol,
fiel às aspirações,
faz aos poucos uma história.
Poeta é aquele que crê
e proclama esta verdade:
só o amor tem fundamento;
o ódio, a cobiça, o ciúme
não têm, não, razão de ser.
Poeta é quem dá, afinal,
través daquilo que escreve,
das palavras de sua boca,
água a quem reclama sede,
pão a quem lhe diz ter fome,
o que cobrir ao que está nu,
e flores — a este, àquele —
flores a toda a gente,
indiscriminadamente,
mesmo a quem, ah! sobretudo
àquele que lhe atira pedras.
Poemas de Jean Carlos Gomes
Variações de um habitat
Ruas estreitas,
Quase sem calçadas,
Pontos de ônibus distantes,
Orelhões danificados,
Bueiros entupidos,
Servidões, vielas, becos...
Morros com matagais,
Plantas de várias espécies,
Vista panorâmica,
Casas edificadas nas alturas,
Lugar um pouco longínquo,
De várias encruzilhadas...
De onde vêm e para onde
Nos levam esses caminhos
Constantemente estreitos?
Poemas...?
Poemas:
Tão claros,
Tão tardios,
Tão escuros...
Tão espaçosos, alegres,
Que transmitem friezas...
Tão rochosos, ácidos,
De tons e sons naturais...
Tão fracos, sem vozes,
Sem melodias,
Sem asas, inexistentes...
Tão encharcados, confusos,
Alguns são inexplicáveis...
Cheios de teias de aranha,
Cheirando a mofo,
Mortos, esfacelados,
Pobres, em decomposição...
Lançados ao relento,
Habitantes rastejantes,
Moribundos, indigentes...
Tão leves, pré-definidos,
Tão tristes,
Tão breves...
Cheios de ilusões, certos,
incertos,
Áridos como a aridez de um
deserto,
Feitos e desfeitos pela Caneta do
Tempo!
Manchas
As frutas do pé de amora
Que fica no alto do barranco,
Perto da rua,
São lançadas ao chão pelo vento
Depois de serem amassadas
Pelos veículos, pelos pés...
Mancham o asfalto
Com enormes manchas roxas,
Assim como o sangue derramado
Dos inocentes,
Mancham freqüentemente as
alamedas,
Nossos dias, nossas vidas!
Solidão trituradora
Chega, na maioria das vezes,
Sem avisar,
Entra pelas nossas entranhas,
Tritura o nosso coração,
Os nossos sonhos,
Os desejos, os amores...
Nosso corpo,
Nossos ossos,
Nossa alma
Dentro desse Mar Revolto...!?
Somente com fé em Deus
Pode-se renascer das cinzas
Igual à fênix vitoriosa,
Destruindo, de vez, essa dolorosa
Angústia que é quase inevitável
Nessa nossa Grande Travessia!
Imortal?
Passo, canto, deixo
Algumas marcas registradas
Por onde passei, passo...
Passo?
De mim ficará alguma coisa?
A alegria, a busca,
As frustrações, o lirismo,
O olhar sensível,
A forma de cantar o amor,
A natureza, a sorte,
A vida, a morte?
A convicção de ser livre?
A infância vivida?
As conquistas?
Os livros...?
Os sonhos...
Ou tudo passará comigo
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